Reza ASLAN, Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré (2013)

Uma crítica à obra de Reza Aslan sobre Jesus de Nazaré

Zahar editora publicou em 2013 o livro do iraniano de nome Reza Aslan, um jovem americano de origem iraniana, cujo título em português é: “Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré”.  Minha primeira observação é que esse autor, proveniente de uma família muçulmana, se converteu ao cristianismo evangélico aos 15 anos. Esse jovem iraniano perdeu a fé na faculdade, apostatou, e voltou ao Islamismo.

Seu livro sobre Jesus é um romance, que pretende ser histórico, sobre a vida daqueles que nós, os cristãos, chamamos Jesus Cristo. Os questionamentos de Aslan são os mesmos dos teólogos liberais dos séculos XVIII ao XX, cuja tese principal é que existe um abismo entre o Cristo pregado pela Igreja (Cristo da fé) e o Jesus que viveu há dois mil anos (Jesus da história). Ele afirma que Jesus é um judeu pregando o judaísmo. Ainda bem que Aslan reconhece que ele mesmo, tendo quatro doutorados, não descobriu nada novo sobre Jesus; além do mais, reconhece que as últimas descobertas foram as de Qumram (1947) e a dos Evangelhos gnósticos.

Na verdade, Aslan populariza um debate acadêmico, e ele sabe disso. A discussão sobre o Jesus histórico e o Cristo da fé, tem, praticamente, três séculos e três momentos. O primeiro questionamento (old quest) afirma o Jesus da história e  nega o Cristo pregado pela fé; isso foi o que defenderam H. S. Reimaurus (1694-1768), D. S. Strauss (1808-1874) e A. von Harnarck (1851-1930). A segunda fase (new quest) afirma, em contraposição à anterior, o Cristo da fé, sem se importar com o Jesus histórico; os autores mais famosos dessa tese foram K. M. A. Kähler (1835-1912) e Rudolf Bultmann (1884-1976). A terceira fase (third quest) afirma que o Jesus da história é o Cristo da fé, tanto E. Käsemann (1906-1998) quanto H. Schürmann são desta posição intelectual. Em concreto, Shürmann procurou estabelecer as relações entre as palavras de Jesus transmitidas antes da Páscoa e as que o foram depois da Páscoa. Graças à conservação de várias palavras de Jesus como recursos para uma pregação missionária, se pode concluir que a fé dos discípulos na palavra e na obra de Jesus não é diferente antes nem depois da Páscoa.

Por outro lado, parece que Aslan sabe que falar inverdades sobre Jesus Cristo e a Igreja Católica dá popularidade e dinheiro. Na verdade, os temas de Aslan em seu livro são temas debatidos há séculos e receberam respostas bem fundamentadas para apoiar a fé dos cristãos. A bibliografia sobre o Jesus histórico é avassaladora e, para nós que nos dedicamos à cristologia, o tema é quase inesgotável.

Negar que os Evangelhos sejam históricos; afirmar que os hagiógrafos apenas oferecem uma argumentação teológica daquilo que eles já acreditavam, ou seja, que Jesus é o Messias, o Filho de Deus; dizer que Jesus foi um revolucionário e, portanto, mais próximo às ideias liberais e, na América Latina, vizinha ao marxismo da Teologia da Libertação; defender que os Evangelhos oferecem um Jesus menos judeu, menos revolucionário e menos vítima de Roma são ideias antigas agora popularizadas por Aslan.

Finalmente, para Aslan, a religião não parece servir para nada desde o ponto de vista da eternidade, mas é apenas um princípio de identidade, ou seja, ela ajuda você a se sentir melhor quando atacam a sua identidade: assim como os cristãos, que vieram do judaísmo, procuraram seu refúgio num cristianismo distinto daquele que Jesus viveu e pregou, numa Terra ocupada por romanos; assim os muçulmanos vivem sua identidade numa Terra ocupada por Judeus. Acaso essa não é uma nova versão da antiga tese marxista que afirma que a religião é uma “droga” que aliena as pessoas? Nesse caso, Aslan a faz de maneira positiva: num mundo onde atacam você, a religião lhe oferece uma identidade. Só isso? Entende-se, portanto, que aquele cristianismo evangélico que o autor viveu não foi suficientemente forte para se autodefender. Aslan agora, pela maneira como se expressa não somente sobre Jesus, mas também sobre a religião, se encontra a um passo do ateísmo, se é que já não o é. De fato, o livro dele é um bom manual para introduzir cristãos no ateísmo.

Pe. Françoá Costa

Doutor em Teologia (2011), Universidade de Navarra

Professor de Cristologia na PUC-GO

Posted in Livros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

* Campo obrigatório