Modernismo e Imanência

O modernismo foi um movimento intelectual que se desenvolveu no final do século XIX e no princípio do século XX no âmbito eclesiástico, especialmente na França e, de maneiras diferentes, na Itália, na Alemanha e na Inglaterra. Esse movimento incidia em diversos campos: filosofia, exegese, história, reforma interior da Igreja[1]. Rivière descreve o modernismo como uma crise religiosa que marcou, na Igreja, o momento crucial do século XX e provocou os principais atos do pontificado de Pio X[2].

O modernismo teve representantes em várias partes da Europa. Na Alemanha, F.-X. Graus e H. Schell; na Italia, Romolo Muri y Ernesto Buonaiuti; na Inglaterra, George Tyrrel; na Francia, o protestante liberal Paul Sabatier e o sacerdote católico Alfred Loisy. Sem dúvida, entre todos eles os que mais se destacaram dentro do movimento foram Tyrrel e Loisy.[3] A França foi a terra do modernismo e Loisy o seu principal representante[4].

Loisy (1857-1940) estudara no Instituto Católico de Paris, foi sacerdote e professor de Exegesse no mesmo Instituto. Influenciado por Renan[5], aplicou o método histórico-crítico aos livros da Bíblia defendendo algumas teses que levaram à perplexidade. Em 1893 lhe foi retirada a licença para ensinar. No ano 1902 foram publicadas duas obras de sua autoria, L’Évangile et l’Église e Études evangéliques. Em 1908, Loisy abandonou a Igreja.

L’Évangile et l’Église era uma tentativa de diálogo com o protestante Adolf von Harnack, que em 1900 publicara as suas aulas dadas na Universidade de Berlim nas quais perguntava-se pela Esencia del cristianismo. Harnack acentua a ética: Cristo teria pregado uma maneira de viver, mas o cristianismo posterior, especialmente ao entrar em contato com o mundo grego, transformaria a mensagem de vida em doutrina. Loisy consegue dialogar intelectualmente com Harnac no mesmo plano, o histórico. Não obstante, Loisy não somente adotaria as ideias de Harnack, mas também se afastaria daquilo que a Igreja acredita. Para Loisy, a mensagem evangélica parecia consistir na pregação do reino: Cristo teria pregado o reino convencido de que o fim do mundo estava próximo e, portanto, não era intenção de Cristo constituir uma comunidade, isto é, não era sua intenção fundar uma Igreja[6]. Encontramo-nos dessa maneira com as premissas da conhecida separação, no campo da cristologia, entre o Jesus da história e o Cristo da fé[7] e que daria lugar a grandes discussões durante o século XX.

Os representantes do modernismo defendiam, entre outras coisas, uma oposição entre história e dogma, diziam que a tradição na Igreja era uma mera comunicação de uma experiência religiosa original y, portanto, encontra-se no campo do subjetivismo e do imanentismo. Desta maneira, compreende-se que a teologia católica dos anos seguintes suspeitaria de algumas ideias como “visão histórica” na teologia, “experiência religiosa”, “imanência” etc.

Contra as posições de Loisy, Maurice Blondel (1861-1949), talvez o filósofo mais profundo na França da época. Blondel queria evitar tanto o racionalismo quanto o positivismo, para isso advoga que a reflexão deve partir da ação concreta, com toda a riqueza que ela tem. A ação humana procede da vontade (volonté voulante) e nenhuma das vontades concretas (volontés voulues) esgota o dinamismo próprio que ela tem. A experiência de que a vontade é inesgotável e desenvolvedora é um dado espontâneo ao ser humano e leva o ser humano a se perguntar sobre uma realidade e um estado que, se acontecessem, dariam plenitude ao dinamismo que sustenta a própria vontade e ação. O nosso espírito aspira à comunhão com Deus e a fé como dom gratuito de Deus encontra em nós algo que corresponde à essa realidade sobrenatural[8].

Em 1904, Blondel publicou Histoire et dogme. Como se segue do anteriormente dito, Blondel está pronto para sair tanto do extrinsecismo quanto do historicismo. O primeiro postula que os fatos significam o sobrenatural através do extraordinário[9]. O historicismo, ao contrário, quer conceder tudo à história, que deveria dar o seu parecer sem ter em conta as ideologias.[10] Loisy era historicista. Nenhum desses extremos, segundo Blondel, é viável: o extrinsecismo não pode ser aceito porque é preciso respeitar também as leis da história; existe uma história profana na qual acontece a história sagrada. O historicismo é inviável porque todo investigado guarda em si as suas próprias vivencias que lhe fazem ver as coisas de determinada maneira, isto é, cada pessoa tem necessariamente os seus pressupostos.

Para evitar a divisão entre história e fé Blondel oferece uma teoria da tradição. Esta é apresentada como uma realidade de comunhão na qual confluem os dados históricos, as crenças dogmáticas e a prática cristã. A tradição é a síntese prévia a toda análise histórica ou doutrinal e a espaço real da interpretação que se queira oferecer[11]. Para este autor, é preciso distinguir entre o método histórico-crítico e a autoridade das fórmulas doutrinais. Segundo Blondel, a ideia de evolução presente em Loisy está cheia de imanentismo e conduz a uma destruição da verdade cristã. A solução não está em criar divisões falsas entre Jesus e Cristo, entre história e dogma, mas em estabelecer relações entre essas distintas realidades[12].

Nesse contexto, é preciso citar os dois documentos emanados pela Santa Sé para combater o modernismo: o Decreto Lamentabili sane exitu (03-VII-1907) do Santo Oficio e a Encíclica Pascendi Dominici Gregis (08-X-1907) do Papa São Pio X.

O Decreto Lamentabili  condena 65 proposições modernistas. Segundo o decreto, o modernismo defende que a leitura que a Igreja faz da Bíblia não é correta, consequentemente defendem esses autores uma oposição entre dogma e história. O Cristo da história seria um homem com simples ciência humana, que não teve a intenção de fundar uma Igreja. Dessa maneira, a Igreja não teria origem divina nem uma autoridade sobre-humana. A Moral e os Sacramentos nesse contexto também não teriam um grande valor já que seriam adaptações de fenômenos históricos com pretensão de ser imutáveis.

Com relação à Pascendi, trata-se de uma grande obra intelectual que pressupõe muita leitura por detrás. A primeira parte da encíclica expõe as doutrinas modernistas; a segunda, as reprova como inaceitáveis, são erros sobre Jesus Cristo, a Igreja e os Sacramentos, principalmente. A tradição, segundo os modernistas, protegida pela Igreja, é a comunicação de uma experiência religiosa original que, mais cedo ou mais tarde, acaba enfrentando-se com o progresso.

Depois da publicação da Encíclica Pascendi, Blondel, que trabalhava na chamada “filosofia da imanência” e que de alguma maneira se sentia aludido, disse com toda a redação da revista Annales de philosophie chrétienne que, sendo verdade que nem toda imanência esteja condenada pela Pascendi, no sentido que a Encíclica condenava a imanência também ele a condenava. Além disso, Blondel deixa bem claro que o cristianismo não emerge da natureza por uma evolução subconsciente e espontânea nem é uma emanação da consciência da humanidade[13].

Na polémica sobre o modernismo, como se viu, foram colocadas as premissas a uma das clássicas questões do século passado: a do Jesus da história e o Cristo da fé. Não há dúvida, contudo, de que o fenómeno modernista foi um desafio para a teologia do século XX, a partir desse momento, a trabalho teológico teria como trabalho analisar melhor as relações entre historia e fé, historia e dogma, depósito da fé e desenvolvimento dogmático.

Pe. Françoá Costa

Estudos de Teologia do século XX

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[1] Cf. C. IZQUIERDO, Cómo se ha entendido el “modernismo teológico”, in CASAS, S. (Ed.), El modernismo a la vuelta de un siglo, EUNSA, Pamplona 2008, p. 29.

[2] cf. J. RIVIÈRE, Le modernismo dans l’Église, Letouzey et ané, Paris 1929, p. V. Sobre a obra de Rivière, Guasco disse que foi a primeira obra científica dedicada ao estudo do modernismo e que continua sendo um ponto de referencia a pesar de ter sido publicada em 1929 (Cf. GUASCO, M., El modernismo – Los hechos, las ideas, los personajes, Desclée de Brouwer, Bilbao 2000, p. 71).

[3] cf. C. IZQUIERDO, Cómo se ha entendido el “modernismo teológico, op. cit., pp.32-33.

[4] Cf. Ib., p. 32.

[5] E. Renan y D. Strauss tinham publicado uma obra que causaría muito polémica, Vida de Jesus (1863), porque negava a divindade de Cristo (cf. GUACO, M., El modernismo – Los hechos, las ideas, los personajes, p. 53).

[6] Cf. M. GUACO, El modernismo – Los hechos, las ideas, los personajes, p. 83.

[7] cf. Ib., p. 85.

[8] José Luis ILLANES, Joseph Ignasi-Saranyana, Historia de la Teología, Madrid: BAC, 3ª ed., 2002, pg. 328-329.

[9] Cf. C. IZQUIERDO, Estudio introductorio, in BLONDEL, M., Historia y dogma, Cristiandad, Madrid 2004, pp. 41-42.

[10] Cf. Ib., pp. 44-45.

[11] C. IZQUIERDO, De la razón a la fe –La aportación de M. Blondel a la teología, EUNSA, Pamplona 1999, pp. 42-43.

[12] Cf. también sobre el modernismo, Alessandro DONI, La riscoperta delle fonti (Cap. 16), in Rino FISICHELLA (a cura di), Storia della teologia, 3, da Vitus Pichler a Henri de Lubac, Edizioni Dehoniane, Roma 1996. Se le en la p. 355 que Blondel defiende que estas relaciones son posibles “soltando dalla tradizione viviente della fede della Chiesa”.

[13] Cf. C. IZQUIERDO, Cómo se ha entendido el “modernismo teológico, op. cit., p. 59.

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