Rod Dreher, A opção beneditina

Rod Dreher, A opção benedita, uma estratégia para cristãos no mundo pós-cristão, Campinas: Ecclesiae, 2018, 318 p.

“Vivemos liturgicamente, contando nossa História Sagrada em canções e adorações, Jejuamos e festejamos. Casamo-nos e damos nossos filhos em casamento, e, ainda que no exílio, lutamos pela paz em nossa cidade. Acolhemos o próximo e enterramos nossos mortos. Lemos a Bíblia e falamos dos santos para os nossos filhos. E também lhes contamos, no jardim ou diante da lareira, as histórias de Odisseu, Aquiles e Enéas, de Dante e de Dom Quixote, de Frodo e de Gandalf, e todos os outros contos que contêm o significado do que é ser um homem ou uma mulher no mundo ocidental. Trabalhamos, rezamos, confessamos nossos pecados, somos misericordiosos, acolhemos os estrangeiros e guardamos os mandamentos. Quando sofremos, ainda mais quando é por Cristo, damos graças, porque é o que fazem os cristãos. Quem poderá saber o que Deus, por sua vez, fará com a nossa fidelidade? Não cabe a nós dizer” (Rod Dreher, A opção benedita, uma estratégia para cristãos no mundo pós-cristão, Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 289-290). Assim termina o livro do norte-americano ortodoxo que, com grande flexibilidade mental e desejo de ensinar os cristãos a se manterem firmes nesta sociedade da “pós-verdade”, faz uma “opção beneditina”.

O título do livro pode até surpreender e pode levar a alguns pensarem que se trata simplesmente de fazer pequenos mosteiros domésticos. A meu ver, a lógica de Dreher é muito melhor: trata-se de resgatar a “Igreja como uma família” no estilo dos primeiros cristãos. Ou será que esse trecho final da obra de Dreher não lembra aquele outro da Carta a Diogneto que nos fala da vida dos cristãos do século II numa sociedade totalmente contrária aos grandes objetivos de Jesus Cristo para o ser humano? Leia novamente o texto do ano 120 d. C.: “Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros.Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, as com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, a aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio (Epístola a Diogneto, cap. 5).

Como afirma Dreher: “A opção beneditina não é (…) voltar o relógio para uma suposta era de ouro. Muito menos construir comunidades de gente pura, separada do mundo real” (p. 282). Sendo assim, no final do livro, o leitor tampouco poderá concluir que o livro é simplesmente uma adaptação da vida religiosa do beneditinos àquela dos leigos, ainda que para o autor é, de fato, sua inspiração. As ideias do autor são, essencialmente, expressão daquilo que os cristãos deveriam viver neste mundo enlouquecido, semelhante àquilo que viviam os primeiros cristãos num mundo igualmente louco. Se, para Dreher, a vida beneditina é inspiração, isso não significa que para você que lê o livro tenha que tomar a Regra de São Bento como inspiração. Penso que se você entender a essência do texto, as ideias de Rod Dreher serão iluminadas pela sua perspectiva ou pelas do carisma que você vive na Igreja.

Pe. Françoá Costa

14/09/2019

fcosta14102017@gmail.com

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