Apologética, 1/25: A Existência de Deus

Link da aula: https://www.youtube.com/watch?v=kIOdR8yib9g 

Um dos textos mais claros da Sagrada Escritura sobre o conhecimento da existência de Deus é Rm 1,19-20: “O que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho revelou. Sua realidade invisível – seu eterno poder e sua divindade – tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que [os seres humanos, especialmente os pagãos] não têm desculpa”. No Antigo Testamento, o texto que parece ser inspirador para o Apóstolo São Paulo nesta questão é Sb 13,1-9, no qual se julga que, se os seres humanos ficaram fascinados pela beleza e a ordem da criação, “calculem quanto mais poderoso é Aquele que os formou, pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor”. A Igreja afirmou, no Concílio Vaticano I, que “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas” (DS 3004. 3306).

Os argumentos contrários à existência de Deus, talvez possam ser sintetizados nessas duas objeções formuladas por Santo Tomás de Aquino, no começo da sua Suma de Teologia (cf. S.Th. I, 2, 3):

  • Como aquela realidade que nós chamamos Deus concebemo-la como “bem infinito” sua existência deveria excluir todo mal. Mas, de fato, o mal existe no mundo. De fato, este é um dos principais argumentos contra a existência de Deus: como um Deus que afirmamos ser infinitamente bom pode permitir tantos terremotos, a morte dos inocentes ou o pecado dos homens contra ele mesmo?
  • Parece que as coisas naturais encontram seus princípios em causas naturais; as realidades livres encontram sua explicação na razão e na vontade humanas. Este é um argumento muito comum ao mundo científico dos nossos tempos: tudo se explica pela própria natureza, segundo muitos homens de ciência, de tal maneira que não precisaríamos causas sobrenaturais como explicações do nosso mundo.

O argumento bíblico que Santo Tomás utiliza para afirmar a existência de Deus é o texto de Ex 3,14: “Eu sou aquele que sou”, isto é, “eu existo ou eu sou”, já que em Deus o ser e a existência são a mesma realidade. Utilizada esta passagem da Escritura, o Doutor Angélico trabalha suas famosas cinco vias para provar que Deus existe, que seguem o seguinte esquema:

  • Há coisas que os nossos sentidos captam: as coisas se movem e são movidas por outras (via do movimento), aquilo que causa algo é por sua vez causado por outra realidade (vida da causalidade eficiente), há realidade que existem e que poderiam não existir (via da necessidade e da contingência), existe coisas mais perfeitas e coisas menos perfeitas (via dos graus de perfeição), as coisas agem em vistas a um fim (via da ordem no governo das coisas).
  • Aplica-se o princípio de causalidade: uma coisa que é movida por outra encontra a causa de seu movimento nesta outra que a move.
  • Declaração de impossibilidade de realizar um processo infinito: se uma realidade movida é movida por outra, e esta por outra, e por outra, e por outra… e assim sucessivamente, ou afirmo que existe um motor imóvel não movido por outro e assim consegue-se explicar todos os outros movimentos, ou não se explica nenhum movimento da sequência de movimentos.
  • Finalmente, o motor não movível, a causa não causada, o necessário absolutamente, o máximo perfeito, a inteligência ordenadora de todas as coisas é Deus.

O Catecismo da Igreja Católica também afirma que o homem, “com sua abertura à verdade e à beleza, com seu senso do bem moral, com sua liberdade e a voz da sua consciência, com sua aspiração ao infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus. Mediante tudo isso percebe sinais de sua alma espiritual. Como “semente de eternidade que leva dentro de si, irredutível à só matéria” (GS 18,1), sua alma não pode ter origem senão em Deus” (Cat., 33).

Logo, o mundo e o ser humano são caminhos racionais para mostrar que Deus existe. Contudo, crer é dom de Deus. Isto é, as vias racionais para o conhecimento da existência de Deus são justamente isso, “apalpadelas” que Deus deixou na criação para que tivéssemos acesso a ele, e, contudo, a fé é sempre dom de Deus, não merecido por nós. Sendo assim, Deus existe, mas o crer nele não é apenas fruto de um caminho intelectual, mas, principalmente, do dom que Deus concede. Sem dúvida alguma, o ser humano, agindo com consciência reta, se prepara para receber o dom de Deus. No entanto, inclusive tal preparação à fé não deixa de ter o auxílio gracioso de Deus.

Então, se o ser humano não crer, a culpa é de Deus que não concedeu o dom da fé a determinada pessoa? Não, por que sempre fica um mistério, que é como que como que o outro polo a ser considerado por nós, a liberdade humana, que pode recusar o dom de Deus, das maneiras as mais diversas.

(Livro interessante para a leitura: Anderson M. R. ALVES, Ateísmo e relativismo: é possível conciliar, São Paulo: Instituto Raimundo Lúlio, 2017, 103 p.)

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 1/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

 

Posted in Estudos.

2 Comments

  1. Muito bom estes textos, precisamos divulgar por todos os meios de comunicação. Padre françoá Costa, juntamente com o Padre Paulo Ricardo e Rodrigo Maria, fazem muito bem este apostolado. Cumprem a risca o mandato de Jesus… ide, pois, ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo… Mt. 28,19.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

* Campo obrigatório