Apologética, 2/25: O Jesus da história é o Cristo da Fé

Link da aula: https://www.youtube.com/watch?v=DnqueTyLuZM

História da questão. No final do século XVIII, influenciados pelo iluminismo, muitos autores começaram a questionar a historicidade do Evangelho. A primeira etapa desta questão se caracterizou por afirmar a historicidade de Jesus de Nazaré, mas sem admitir que ele fosse o mesmo Cristo Salvador pregado pelo cristianismo. Autores como Reimaurus, Harnack e Schweitzer afirmaram que Jesus Cristo, tal como a Igreja o prega, é uma farsa, porque os mesmos Evangelhos são uma fraude. O Jesus que existiu na Palestina seria um fracassado que morreu na Cruz, mas os discípulos teriam exaltado sua figura e criaram o mito do Cristo salvador atribuindo-o a Jesus de Nazaré.

Os estudos feitos a favor do Jesus de Nazaré, o histórico, e contra o Cristo da fé, o mito da Igreja, deram, como resultado, uma dúvida generalizada sobre todas essas coisas. Sendo assim, alguns autores como Kähler e Bultmann, através de seus estudos interpretativos, chegaram à afirmação de que o verdadeiro é o Cristo pregado da Igreja, não este Jesus que dizem que é histórico. Para esses autores, a existência de Jesus de Nazaré interessaria pouco ou quase nada, pois o importante seria a fé da Igreja que afirma que Jesus Cristo é o Salvador. Temos aqui uma típica postura protestante baseada na “sola fides”.

A terceira etapa, liderada por Käsemann e Shürmann, procurou estabelecer a continuidade entre o Jesus da história e o Cristo da fé, de tal maneira que, efetivamente, Jesus é o Cristo, isto é, o nome “Jesus Cristo” é uma confissão de fé, contudo tal profissão não obscurece a história. Não podemos mitificar Jesus Cristo, tampouco negá-lo em nome da história. De fato, além da pregação apostólica realizada no Evangelho quadriforme, temos a vida dos primeiros cristãos, a admirável expansão do cristianismo e a transformação na sociedade que ele provocou em favor da historicidade de Jesus de Nazaré e todo o seu mistério sobrenatural que afirma que ele é o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Além do mais nas “Antiguidades judaicas” de Flávio Josefo há um testemunho muito importante sobre Jesus de Nazaré. Trata-se de um testemunho não cristão que tem seu valor por sua extensão e por sua extensão, pois se trata de um texto do ano 93. O texto flaviano diz assim: “Jesus viveu por este tempo, era um homem sábio, caso possa ser chamado homem, que realizava obras extraordinárias, mestre de todos os homens que acolhem com gosto a verdade. Arrastou muitos judeus e muitos pagãos. Ele era o Messias. Ainda que, por instigação das nossas autoridades, Pilatos o condenou a morrer na cruz e aqueles que antes o amavam não o abandonaram, pois ele apareceu-lhes de novo vivo no terceiro dia, tal como tinha sido previsto pelos profetas, que, além disso, tinham anunciado muitas coisas admiráveis sobre ele. Até o dia de hoje continua existindo a linhagem dos cristãos, que são assim chamado por causa dele” (XVIII, 63-64).

Para os primeiros cristãos, aqueles que conheceram Jesus Cristo, viram seus milagres, presenciaram os momentos de sua paixão e ressurreição, tampouco seria fácil acreditar nele. De fato, as autoridades judaicas viram os milagres de Jesus e afirmaram que ele estava possuído pelo demônio, quando ele ressuscitou disseram que o seu corpo tinha sido roubado pelos discípulos, entre outras coisas adversas. Para quem não quer crer, todo argumento bate no muro de sua má vontade.

Contudo esta discussão teve a vantagem de nos fazer voltar ao Evangelho tendo em conta aquilo que nos diz o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática sobre a Palavra de Deus, a Dei Verbum, no número 19, que podemos resumir nestas três afirmações:

  • O Evangelho não deve ser lido como um livro de mera história, já que se trata de uma maneira peculiar de contar uma história, a de Jesus Cristo, porém temos que ter em conta a quem esta história se dirige e qual a finalidade que o escrito pretende;
  • A história que o Evangelho apresenta contém o fundamental para a fé e para a existência cristã, já que os quatro Evangelistas nos narram uma história para a nossa salvação;
  • A apreciação histórica sobre o Evangelho (Mateus, Marcos, Lucas, João) depende também dos fatores subjetivos dos leitores.

(Livro interessante para a leitura a leitura: Françoá COSTA, Jesus Cristo, o único Salvador, São Paulo: Cultor de Livros, 2019, 511 p. As páginas 155 a 170 trabalham esse tema mais detalhadamente.)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 2/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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