Apologética, 3/25: o Cristianismo não foi fundado por Paulo

Link da aula: https://www.youtube.com/watch?v=TThOtT1664M

Diante da excepcionalidade do Apóstolo Paulo e sua importância para o cristianismo, alguns ousaram afirmar que na verdade, Jesus Cristo não teria fundado uma Igreja, mas teria sido Paulo que, com seu entusiasmo e dinamismo, teria fundado a religião cristã. Não foi Paulo quem morreu para nos salvar, mas Jesus Cristo, que é não somente o Fundador do Cristianismo, mas também seu fundamento, por estar implicado naquilo que ele fundou.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que antes de Paulo chegar ao cristianismo, os discípulos de Jesus já “mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42). Se Jesus Cristo não foi o fundador do cristianismo, com certeza Paulo não o teria sido, já que este só chegará à fé cristã bem depois (cf. At 9). O dinamismo de Paulo foi muito importante para a Igreja, contudo uma leitura tranquila dos Atos dos Apóstolos nos mostra uma Igreja já estruturada quando Paulo se converte.

Em um segundo momento há que dizer que a divina Revelação, segundo o Concílio Vaticano II, acontece através de “palavras e gestos intrinsecamente conexos entre si”: as palavras explicam as ações e as ações manifestam e corroboram a doutrina (cf. DV, 2). Basta, portanto, aplicarmos o esquema de “palavras e ações” à revelação do mistério da Igreja. É a junção entre palavras e ações que nos dá o conhecimento da revelação divina. Quanto às palavras, nós já as vimos anteriormente: Mt 16,18 e 18,17, juntamente com todas aquelas palavras que se referem ao “reino” enquanto aplicáveis ao mistério da Igreja. Vejamos agora as ações, isto é, aqueles feitos de Jesus que revelam que ele quis fundar a Igreja:

  • O fato de Jesus ter reunido em torno a si um grupo de discípulos. Outrora, o povo de Israel fora reunido em torno a Moisés;
  • Esse grupo de discípulos tem uma oração, que lhes é característica no que tem de novidade: o Pai-nosso, que “foi o primeiro ponto de partida de uma comunidade segregada pela oração com Jesus e a partir de Jesus”(J. Ratzinger, Compreender a Igreja hoje, 15);
  • O grupo de discípulos consta inicialmente com 70 ou 72 que era “segundo a tradição judaica (Gn 10; EX 1,5; Dt 32,8), o número das nações (não judias) do mundo” (Id.). Vemos, dessa maneira, que a Igreja de Jesus Cristo estaria destinada a todos; ela, como instrumento de salvação deve dirigir-se a todos, deve ser universal, católica;
  • Os Doze também têm um significado especial: doze eram as tribos de Israel que, reunidas pela oração da Páscoa, são constituídas como Povo; doze também são os apóstolos de Cristo, fundamento do Novo Israel de Deus, o qual deverão pastorear em nome de Jesus Cristo. Os doze eram para ficar com Jesus e para pregarem o Evangelho (cf. Mc 3,14): oração e pregação eram as principais atividades do apóstolo de Jesus Cristo. Hoje como outrora, quem tem a missão de governar o Rebanho do Senhor deve se dedicar de maneira especial à oração (cuja máxima expressão é a celebração da Eucaristia) e à pregação.
  • A primazia do Pedro no grupo dos Doze: ele aparece sempre em primeiro lugar nas listas que enumeram os Doze (cf. Mc 3,13-19; Lc 6,12-16), dá as respostas às perguntas de Jesus (cf. Mt 16,16) e tem garantida a oração de Jesus para que permaneça sempre firme na fé (Lc 22,32). Pedro tem a primazia entre os Doze assim como o Sucessor de Pedro terá sempre a primazia no Colégio dos Bispos, sucessores dos Apóstolos;
  • A Instituição da Eucaristia “é a conclusão de uma aliança e como aliança é a fundação concreta de um novo povo, que se torna povo por sua relação de aliança com Deus. Poderíamos também dizer: mediante o acontecimento eucarístico, Jesus incorpora os discípulos em sua relação com Deus e com isto também em sua missão, que está dirigida para “os muitos”, para a humanidade de todos os lugares e de todas as épocas. Esses discípulos se tornam “povo” através da comunhão do corpo e do sangue de Jesus, que é também comunhão com Deus. A ideia de aliança no Antigo Testamento, que Jesus incorporou em sua pregação, recebe um novo centro: sermos um no corpo de Cristo. Poderíamos dizer: o povo da Nova Aliança se torna povo a partir do corpo e do sangue de Cristo: é povo somente a partir desse ponto central” (Ib., p. 16).

Os atos de Cristo em ordem à fundação da Igreja, juntamente com suas palavras, mostram que ele não somente quis fundar uma Igreja, mas que de fato a fundou. Essa congregação foi convocada por Jesus Cristo para ser na terra meio de salvação (medium salutis) para que todos possam receber o fruto da salvação (fructus salutis) do Mistério Pascal que, sem dúvida alguma, é também um dos atos de fundação da Igreja, juntamente como envio do Espírito Santo.

(Livro interessante para a leitura: Josepf Holzner, Paulo de Tarso, São Paulo: Quadrante, 2ª ed., 2008, 574 p.)

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 3/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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One Comment

  1. Enriquecedor os ensinamentos de padre Françoá.
    Só pela fé eu já acreditava que o fundador e também fundamento da igreja Católica é Nosso Senhor de modo especial sobre o primeiro papa Pedro.Mas é bem melhor agente ter também nossa fé fundamentada nas sagradas escrituras e na tradição.

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