Apologética, 5/25: Uma Igreja ou várias igrejas?

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Ainda que exista várias igrejas, na verdade apenas uma delas é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Ele mesmo o disse ao afirmar: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18). Quando Paulo se converte ao Senhor, ele lhe aparece e lhe diz: “Por que me persegues?” (At 9,4). Na verdade, Paulo perseguia os cristãos e, contudo, Jesus lhe pergunta porque ele o persegue, a Jesus. São Paulo entendeu certa identificação entre Cristo e os cristãos que, posteriormente, nos deixaria sua bela e não menos verdadeira teologia do corpo de Cristo (Rm 12), na qual a Igreja aparece como o corpo de Cristo (cf. 1 Cor 12,27), da qual a cabeça é o próprio Jesus Cristo.

O Novo Testamento nos oferece muito outros dados para continuar descobrindo a eclesiologia de Paulo: a Igreja é coluna e suporte da verdade (1 Tm 3,15), é ela que guarda o depósito da fé de maneira inalterável (2 Tm 1,13ss). Constituída Corpo de Cristo por meio do Evangelho (Ef 3,6), é santa (Ef 5,26ss), ainda que em seu seio haja pecadores (1 Cor 5,12). A Igreja nasce de um só batismo (Ef 4,5), se alimenta por um só pão (1 Cor 10,17) e reúne um só povo (Gl 3,28). Paulo ama a Igreja ardentemente (1 Cor 4,15; 11,28) e ensina que esse amor à Igreja deve estar marcado pelos sacrifícios pessoais (1 Cor 4,9-13; 2 Cor 1,5-9; Col 1,24). Todos os membros do Povo cristão são chamados a amar e a servir à Igreja mediante o exercício dos próprios carismas com os quais Deus ornamentou a Igreja e alcançar a Jerusalém celeste, a cidade santa (cf. Ap 21), a Ecclesia in Patria, expressão perfeitíssima do que é a Igreja, comunhão com Deus e com os homens no céu.

Se a Igreja é o Corpo de Cristo, ele não tem dois corpos, mas ele é uma cabeça de um corpo. Desta maneira, assim como não se pode afirmar Jesus-Cabeça sem o seu Corpo-Igreja, tampouco se pode afirmar a Igreja-Corpo sem Jesus-Cabeça; são duas realidades inseparáveis. Portanto, pelo mesmo motivo que existe um só corpo de Jesus, existe uma só Igreja. Também é verdade que assim como Deus escolheu Israel no Antigo Testamento para ser o seu Povo, também escolheu a Igreja para ser o seu Povo do Novo Testamento em Jesus Cristo. Mais ainda, assim como havia um único Templo, em Jerusalém, no qual se oferecia o sacrifício, também existe um único Templo do Espírito Santo, a Igreja, na qual se oferece o santo e divino sacrifício do Novo Testamento.

Referir a Igreja à Santíssima Trindade é também um lugar comum na teologia católica: assim como a Trindade é o mistério de três Pessoas na unidade e unicidade de Deus, assim também na Igreja é una e única por causa do Deus uno e trino, isto é, recebe essa nota da própria Trindade como participação no mistério de Deus. Que a Igreja seja “o povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” afirmaram são Cipriano, santo Agostinho e são João Damasceno (cf. LG, 4). Contudo, “na etapa terrena da Igreja, a unidade consiste em obter a plenitude da realidade interior, utilizando a plenitude dos meios postos por Deus à nossa disposição para consegui-la” (Salvador PIÉ-NINOT, Introdução à eclesiologia, o. c., p. 77).

A Igreja tem a plenitude da unidade nos meios de salvação e nós podemos viver a unidade da Igreja vivendo essa plenitude. À única Igreja de Jesus Cristo se pode incorporar e, portanto, viver a unidade nela e com ela através dos chamados vínculo externos e vínculos internos. Quanto aos externos, o texto dos Atos dos Apóstolos nos diz como os cristãos viviam a unidade: “mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (2,42). Esses são os vínculos visíveis: o ensinamento dos apóstolos corresponde à profissão de fé (vinculum symbolicum); a comunhão fraterna, ao pastoreio dos legítimos pastores (vinculum sociale-communitarium); a fração do pão e as orações, à unidade nos sacramentos (vinculum liturgicum). A história da teologia testemunha que esses vínculos externos traduzem muito bem a característica de unidade ínsita à Igreja fundada por Jesus Cristo. Teólogos e santos como Bernardo, Tomás de Aquino e Roberto Belarmino utilizaram e sistematizaram esses vínculos externos: a mesma fé, os mesmos sacramentos e o mesmo pastoreio manifestam a unidade da Igreja.

Mas, a Igreja vive a união “carnal e espiritual”, como dizia santo Inácio de Antioquia (cf. Magn, XIII,12). Essa união espiritual acontece especialmente pela graça santificante. Isto é, alguém pode estar em plena comunhão com a Igreja de Cristo desde o ponto de vista dos vínculos externos, mas poderia não está-lo por viver num determinado momento em pecado mortal. Para viver plenamente a unidade da Igreja é preciso ter tantos os vínculos externos quanto o interno, que é a graça. Caso contrário, a comunhão será parcial. Logicamente, para o Direito Canônico é suficiente verificar os vínculos externos para ver se alguém é plenamente cristão, plenamente católico; e, contudo, cada um deve se examinar diante de Deus para ver se é plenamente católico: a ausência da graça nos faz menos católicos, isto é, menos cristãos. Isso se evidencia mais ainda quando a doutrina católica afirma que o sacramento da reconciliação é reconciliação com Cristo e com a Igreja.

Mais ainda, desde o ponto de vista histórico, nós somos capazes de fazer uma linha sucessória perfeita desde o Apóstolo Pedro até o Papa atual, Francisco, que é o 266º Papa da Igreja Católica. Pedro,  Lino, Cleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleutério, Vítor, Zeferino, Calisto, Urbano, Ponciano, Antero, Fabinao, (…), João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI, Francisco. Não deixa de ser interessante que os papas dos primeiros cinco séculos foram todos santos; o primeiro que não foi canonizado foi o Papa Bonifácio II (530-532), o qual conviveu com um antipapa, Dióscoro (ano 530). Também é importante notar que nos períodos nos quais a Igreja teve antipapas, ela também soube julgar, justamente ao falar que fulano foi antipapa, que tal sujeito não foi sucessor válido de São Pedro. Mesmo quando a Barca de Pedro, a Igreja se encontrar, em alguns momentos da história, em situações tão difíceis que parece que irá se afundar, lembremo-nos das duas colunas católicas da Igreja: o santo sacrifício da Missa (Eucaristia) e Maria Santíssima.

(Livro interessante para a leitura: CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração Dominus Iesus, 2000; acesso em http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html )

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 5/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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