Apologética, 6/25: Se quem salva é Jesus porque a Igreja Católica diz que sem ela não há salvação?

Link da aula: https://www.youtube.com/watch?v=LZX1RkiCUus

Desde os primeiros tempos do cristianismo, a catolicidade da Igreja significa tanto universalidade (a única Igreja em todas as partes) quanto autenticidade (a Católica é a verdadeira). Durante a Idade Média, a catolicidade no sentido de universalidade extensiva foi aumentando, a tal ponto que encontramos no IV Concílio Lateranense (1215) o famoso axioma: “extra Ecclesiam nulla salus”, ainda que essa maneira de pensar se remonte aos antigos Padres da Igreja.

São Cipriano de Cartago (+258) em sua obra “A unidade da Igreja Católica” afirma: “Quem estiver fora da Igreja só se salvaria se alguém dos que ficaram fora da Arca de Noé tivesse escapado! (…) Torna-se adversário de Cristo quem rompe a paz e a concórdia do Cristo; ajuntar fora da Igreja é dispersar a Igreja de Cristo. (…) Quem crê nessa verdade fundada na certeza divina e adere aos mistérios celestiais não abandona a Igreja ou dela se afasta por causa da diversidade das vontades que se entrechocam. Quem não mantém esta unidade não mantem também a lei de Deus, a fé no Pai e no Filho, não conserva nem a vida nem a salvação” (A unidade da Igreja Católica, 6).

“O Vaticano II uniu a afirmação da catolicidade da Igreja com a da sua missão”: ao novo Povo de Deus todos os homens “são chamados a pertencer” (LG 13). Continua, portanto, claro que “fora da Igreja não há salvação”, já que toda salvação vem de Cristo, e Cristo sempre leva consigo a sua Igreja, que é o seu Corpo. Será que a Cabeça anda por separada do Corpo? Cabeça fora do corpo ou corpo fora do corpo significa morte. De fato, o Concílio Vaticano II afirmou: “não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus por meio de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disso não quiserem nela entrar ou nela perseverar” (LG 14); afirmou também: “Aqueles, portanto, que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob influxo da graça, cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência podem conseguir a salvação eterna” (LG 16). Com tudo, permanece de pé o dever e o direito da Igreja de evangelizar todos os homens (cfr. Cat. 848).

Na verdade, tudo isso não é tão complexo para se entender desde a perspectiva da Sagrada Escritura. De fato, o Apóstolo Paulo, por ocasião de seu encontro com Jesus que o levou à conversão, escutou do próprio Senhor que ele chamara os perseguidos de “ele mesmo” através daquelas palavras “por que me persegues?” (At 9,4) quando, na verdade, Paulo perseguia os cristãos. Essas palavras devem ter ficado tão gravadas na mente de São Paulo que ele será o pensador cristão a desenvolver a ideia de que a Igreja é o “Corpo de Cristo” (Rm 12,4-5; 1 Cor 12, 12-30). A Igreja não pode ser o Corpo físico de Jesus, pois este se encontra gloriosamente no céu; nem pode ser o Corpo eucarístico de Jesus, pois este se encontra no Sacramento da Eucaristia. A Igreja é chamada “Corpo místico (ou misterioso)” de Jesus no qual nós, os filhos de Deus por adoção somos inseridos pelo sacramento do Batismo. Isto é, nós nos salvamos ao “entrar em Cristo”, o único Salvador. Porém, ao entrarmos no Corpo do Senhor estamos a entra na “sua Igreja” e é, justamente, desta maneira que Jesus nos salva, como membros do seu Corpo Místico, que é a Igreja. Entende-se, desta maneira, que sem a Igreja não há salvação. Sendo assim, Jesus é a cabeça da Igreja, e a Igreja é o corpo da Cabeça, que é Jesus Cristo. Seria muito estranho ver por aí um corpo andando sem a sua cabeça, e ao contrário. Portanto, não se pode separar a salvação que Jesus Cristo nos concede da pertença à Igreja-Corpo dele.

Pode acontecer, contudo, que alguém, sem culpa própria, desconheça que a Igreja seja necessária para a salvação e nela não ingresse. Neste caso, tal pessoa, seguindo a Lei Natural na medida em que a alcançou em sua consciência, poderá ser salva. Se ela for salva, descobrirá, ao chegar no céu, que na verdade ela foi salva em Jesus e na Igreja Católica, já que, pela graça invisível e não ligada necessariamente aos Sacramentos, o Espírito Santo faz Jesus e a Igreja se estenderem além das estruturas visíveis da Igreja Católica. Tudo isso manifesta mais uma vez a bondade de Deus que faz de tudo, até o último momento da vida de cada ser humano, para que ele se salve, para ter cada pessoa humana consigo no céu.

[Livro interessante para a leitura: CIPRIANO DE CARTAGO, A unidade da Igreja Católica, São Paulo: Paulus, 2016 (Patrística 35/1, Cipriano de Cartago, Obras Completas I)]

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 6/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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