Apologética, 10/25: Se temos a Bíblia, porque precisamos mais?

Segundo os estudiosos, os primeiros escritos do Novo Testamento são as Cartas de São Paulo aos Tessalonicenses e, ainda segundo exegetas criteriosos, esses textos não foram escritos antes do ano 50 nem depois do ano 54 da nossa era. Logo, temos que concluir que uns 25 anos após a morte e ressurreição de Jesus os cristãos não tinham os escritos do Novo Testamento. E, contudo, como se lê nos Atos dos Apóstolos, escrito provavelmente em torno ao ano 80, os cristãos viviam plenamente a fé em Jesus Cristo, em comunhão com os apóstolos, de maneira harmônica e todos buscavam a salvação (cf. At 2,42). Forçoso é dizer que naquele então não era necessário algum livro sagrado do Novo Testamento para viverem em plenitude a Fé, também o Novo Testamento se encontrava em “estado embrionário” no útero da Igreja. É verdade que os cristãos liam os escritos daquele conjunto que, posteriormente, será conhecido como Antigo Testamento, mas não havia ainda escritos próprios da Igreja.

Afirmamos há pouco que o Novo Testamento se encontrava no útero da Igreja, no coração da Igreja. E isso é verdade. Primeiro, as pessoas aderiram-se a Jesus Cristo através da pregação apostólica, já que a fé vem pela pregação (cf. Rm 10,17), escutavam a vida e as ações de Jesus Cristo através dos próprios apóstolos que conviveram com ele e eram testemunhas de sua ressurreição, posteriormente os escritos foram feitos. Observe a gênese desta realidade: primeiro se entrega (traditio) aquilo que foi recebido, depois se escreve (scripta) aquilo que já está no coração da Igreja. Por isso, o Apóstolo chega a dizer que a Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade (cf. 1 Tm 3,15). Consciente desta mesma realidade, o evangelista São João chega a dizer-nos que Jesus Cristo fez tanto que os livros não bastariam para escrever tudo aquilo que se deveria deixar registrado (cf. Jo 20,30-31; 21,25).

São Paulo dirá aos primeiros fiéis aos quais escreve que é importante guardar as tradições que lhes foram ensinadas oralmente ou por escrito (cf. 2 Ts 2,15). Quando lemos essa passagem, não é arriscado pensar que quando as cartas aos Tessalonicenses foram escritas, já existiam relatos soltos, quiçá da paixão e ressurreição de Jesus, que os cristãos já guardavam como verdadeiros tesouros de tradição. Contudo uma das consequências mais fortes deste texto é que os cristãos devem guardar também as tradições escritas. Isto é, São Paulo nos ajuda a entender que a Bíblia faz parte da Tradição, ela mesma é Tradição enquanto posta por escrito; logo, a Tradição é anterior à Escritura. Portanto, uma contem a outra, a Bíblia está no coração da Igreja e a Tradição foi posta por escrita na Bíblia. Evidentemente, um escrito não supera a realidade histórica, por isso, ainda que temos de afirmar que a Bíblia contem a divina revelação, é forçoso afirmar também que há aspectos que estão na Bíblia apenas de maneira implícita, uma vez que a realidade sempre supera um Escrito. Além do mais, quando falamos da Bíblia nos referimos a uma realidade que está primeiramente no coração da Igreja como lugar que lhe é próprio.

Os Padres da Igreja tinham como princípio fundamental que é preciso ler a Escritura com o mesmo espírito com que foi escrita. Esta ideia se encontra no Concílio Vaticano II. Assim como o Espírito Santo assistiu o escritor sagrado (hagiógrafo) também assegura o entendimento mais profundo do texto por parte dos leitores subsequentes. Os Padres da Igreja tinham, portanto, uma leitura sapiencial da Sagrada Escritura, degustavam-na, davam voltas aos textos saboreando-os, faziam muitas conexões entre várias passagens. São Agostinho tem uma frase muito bela que nos mostra a importância da Igreja na adesão à Escritura Santa: Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas: Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica. São Jerônimo aconselhava que nunca se abandonasse a leitura dos textos sagrados e dizia que desconhecê-los é ignorar Jesus Cristo.

Infelizmente, a Reforma Protestante introduziu uma tensão entre a compreensão pessoal e o texto em si mesmo. Falta, neste caso, a mediação da Igreja, que ajude a harmonizar os dois fatores. No protestantismo há uma interpretação pessoal e individualista da Sagrada Escritura, que contribui para que haja tantas comunidades, cada uma com a Bíblia e cada uma com interpretações divergentes. Sem o contexto da Tradição, não se entende a Bíblia, é isso que queremos dizer.

Finalmente, uma pequena anotação sobre a interpretação correta da Sagrada Escritura. A pergunta aqui é a seguinte: quais são os critérios para uma correta interpretação da Bíblia? Diz o Catecismo (a partir do nº 109) que na Sagrada Escritura Deus fala aos homens à maneira dos homens. Precisamos, portanto, descobrir a intenção dos autores sagrados, para isso há que levar em consideração as condições da época e da cultura deles, os gêneros literários em uso naquele tempo, os modos, então correntes, de sentir, falar e narrar. Para uma interpretação conforme o Espírito que inspirou a Escritura o Concílio Vaticano II dá três critérios: 1) prestar muita atenção ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira (não se pode pegar um versículo e isolá-lo do todo), pois a Bíblia é una por causa da unidade do projeto de Deus, do qual Jesus Cristo é o centro e o coração, daí que os Evangelhos sejam também o centro e o coração das Escrituras; 2) ler a Escritura dentro “da tradição viva da Igreja inteira”, já que a Igreja leva em sua Tradição a memória viva da Palavra de Deus e é o Espírito Santo que dá à Igreja a interpretação espiritual da Escritura; 3) estar atento “à analogia da fé”, por analogia da fé entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da Revelação, sendo assim não pode haver nunca uma contradição entre o que se lê na Bíblia com alguma verdade que a Igreja firmemente crê.

(Livro interessante para a leitura: Dave ARMSTRONG, Está na Bíblia. Os versículos católicos)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 10/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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