Apologética, 8/25: O destino eterno dos seres humanos está predeterminado por Deus?

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Façamos uma distinção inicial, a presciência divina é o ato da inteligência de Deus que conhece todas as coisas, passadas, presente e futuras; a predestinação é o ato da vontade divina pela qual Deus decide eternamente a salvação de uma pessoa e dispõe os dons que lhe dará. A Igreja Católica, em sua doutrina oficial, sempre teve claro que Deus predestinou todos os seres humanos à salvação, já que os predestinou à felicidade. E, contudo, o ser humano pode ser condenado.

Na doutrina de Calvino, alguns homens estariam predestinados para o céu e por mais que eles pequem, irão necessariamente para o céu; outros, predestinados para o inferno, por mais que realizem atos de virtudes, irão para o inferno. Essa doutrina, por mais que seja perversa, mostraria a eficácia da ciência e do poder de Deus, que conhece e age a nossa salvação. Sendo assim, um dos sinais distintivos dos predestinados ao céu seria o bem estar temporal; a pobreza, ao contrário, seria sinal de predestinação ao inferno. Algumas pessoas enraízam nesta doutrina, explicada aqui de maneira sumária, os fundamentos do capitalismo de origem norte-americana.

As Escrituras rechaçam essa doutrina, uma vez que Deus “quer que todos os seres humanos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2,4), prova esta afirmação o fato de que Jesus Cristo morreu por todos (cf. 2 Cor 5,14-15) e sua morte não foi ineficaz.

Ainda que os pais do protestantismo em geral tenham afirmado a dupla predestinação, Calvino foi quem mais se destacou nessa questão, suas afirmações sobre esse tema era uma radicalização do pensamento de Santo Agostinho. Com efeito, o santo bispo de Hipona deixou muitas lacunas em seu pensamento teológico sobre esta delicada questão. Por exemplo, chegou a escrever que “assim é dividido o gênero humano, de tal maneira que em uns se mostra o que vale a graça misericordiosa, no resto se manifesta o justo castigo” (De Civ. Dei, XXI, 12). Quem lê este texto rapidamente, dificilmente se livrará da dupla predestinação: os seres humanos teriam sido divididos por Deus em eleitos (predestinati ad vitam) e condenados (massa damnata). Para piorar a situação, Santo Agostinho chega a afirmar: “Os fieis devem ter por seguro que um [aquele que perseverou até o fim] era dos predestinados, e o outro [quem não perseverou] não era” (De dono pers., 9,21).

No ano 473, o Concílio de Arlés corrigiu Lúcido, um presbítero, que exagerava o pensamento agostiniano, e deixou claro que Deus não faz com que as pessoas se condenem (cf. DH, 331-335). O Concílio de Orange (529) afirma que não se pode falar de uma predestinação ao mal ou à condenação eterna (cf. DH 397). Já o Concílio de Quierzy (853) pontualiza o anterior ao afirmar que predestinação diz respeito à salvação, não à condenação (DH 621-624). Talvez seja este o momento de lembrar a definição de predestinação que tínhamos posto no começo deste texto: o ato da vontade divina pela qual Deus decide eternamente a salvação de uma pessoal e dispõe os dons que lhe dará.

Calvino em sua “Instituição da Religião Cristã” (1536) afirma que aquele que crê em Jesus Cristo e a ele se incorpora não pode mais se condenar, está necessariamente salvo. Esta é sua lógica:

  • O homem é pecador, absolutamente pecador, necessariamente corrompido pelo pecado;
  • Já que é assim, a salvação só pode ser um dom total de Deus e, portanto, ele, desde toda a eternidade e com absoluta liberdade, escolheu aqueles que ia salvar (sem méritos por parte dos eleitos); consequentemente, todos os outros estão destinados justamente à eterna condenação;
  • Jesus Cristo como mediador realizou sua obra de salvação pelos eleitos e se limitou a eles, já que somente eles, de fato, serão salvos;
  • O Espírito Santo realiza a vocação para a salvação, ele chama os escolhidos com uma graça irresistível, ou seja, aquele ao qual Deus decidiu salvar, será incorporado a Cristo necessariamente;
  • Consequentemente, todos os eleitos perseverarão até o final e não falharão.

O Concílio de Trento rebateu o erro de Calvino quando disse que “ninguém, enquanto vive nesta condição mortal, deve presumir do mistério da predestinação a tal ponto de ter segurança de estar entre o número dos predestinados, como se fosse verdade que o justificado já não pode pecar ou, se peca, pode prometer-se um arrependimento seguro. Sem uma especial revelação de Deus, não se pode saber quem Deus escolheu para si” (De Iustif., cap. 12; DH, 1540). Como se pode ver, o Concílio, em vez de rebater a doutrina da predestinação, apenas diz que ninguém pode saber seguramente se está entre os eleitos. Evidentemente, não se pode condenar a doutrina da predestinação, o que é condenável é a “dupla predestinação”. O mistério da predestinação se refere aos que efetivamente se salvarão, não aos que se condenarão, como já deixara claro o Concílio de Quierzy. Portanto, falar de “dupla predestinação” é um monstro teológico, já que a condenação deve receber uma outra consideração teológica.

Com o desenvolver deste tema, já podemos constatar alguns dados de grande importância para entendermos algo deste mistério: 1) Deus quer que todos os seres humanos se salvem, seria ímpio afirmar que Deus criou o ser humano para a infelicidade eterna, pois se assim fosse o ser humano poderia voltar-se contra Deus e perguntar-lhe raivosamente “por que você me criou?”; 2) Cristo morreu por todos, portanto o mistério da salvação que se dá em Jesus Cristo é por todos os seres humanos de todos os tempos, clara demonstração de que o Pai quer realmente que todos se salvem por Jesus Cristo; 3) a predestinação é o mistério da vontade de Deus que quer a salvação dos eleitos, portanto não se pode colocar ao mesmo nível a questão da condenação eterna.

Contudo ao afirmar que a predestinação é o ato da vontade pelo qual Deus decide a salvação dos eleitos e lhes dá os meios para chegar a ele eternamente, parece que Deus teria feito uma seleção e, consequentemente, haveria pessoas que não se encontram entre os “queridinhos” de Deus. O Catecismo da Igreja Católica, bem ancorado na Tradição, nos dá uma luz importante com esta afirmação: “Para Deus, todos os momentos do tempo estão presentes em sua atualidade. Ele estabelece, portanto, seu projeto eterno de “predestinação” incluindo nele a resposta livre de cada homem à sua graça” (Cat., n. 600).

Deus está fora do tempo, ele é eterno e, portanto, ele não decide no tempo, mas, em sua eternidade: vendo todos os nossos atos livres, decide a nossa salvação desde toda a eternidade. Isto é, Deus não decide os nossos atos livres, mas, em sua eternidade, vistos os nossos atos livres, ele decide a nossa salvação. Neste sentido, ele já conhece o número dos eleitos. Contudo o que ele decide é a nossa salvação porque a predestinação é um ato positivo da sua vontade – ele quer nos salvar – e, neste sentido, Deus não pode querer o mal. Efetivamente, com vontade positiva, querer o mal por parte de Deus seria contraditório, posto que uma tal vontade contrariaria a essência de sua vontade perfeita, que sempre quer o bem. Deus, contudo, pode permitir o mal (com vontade permissiva). Contudo, uma vez que ele conhece e quer eternamente, pode-se afirmar que ele conhece e quer os eleitos, inclusive em seu número exato, desde toda a eternidade.

(Livro interessante para ler: Luiz F. LADARIA, Introdução à Antropologia Teológica, São Paulo: Loyola, 2016)

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 8/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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