Apologética, 9/25: A fé é apenas uma confiança que não se apoia nas obras?

Pelágio (350-423) afirmara que o pecado original não existe, que a graça de Deus não é essencial para a salvação e que o ser humano tem capacidade para decidir tudo pelo seu livre arbítrio. Tudo fora dito para evitar o laxismo, ou seja, a preguiça na luta espiritual. Pelágio queria que os fiéis fosse mais voluntariosos na luta contra o pecado. Contudo errou na sua consideração doutrinal para tirar sua doutrina moral. Perceberam-no Santo Agostinho e São Jerônimo, os quais combateram as doutrina pelagianas.

Pelágio (350-423)

Lutero (1483-1546), em seu mundo de angústias existenciais e certo desespero, afirmará justamente o contrário: as obras não servem para nada, não precisamos nos esforçar para merecer nada. Contra os rigoristas – aqueles que, com grande força de vontade, pensam e agem com uma vontade bem afastada da preguiça – Lutero defendia que a total corrupção da natureza humana por causa do pecado original, a graça de Cristo como única causa justificadora e na liberdade escrava (pois o pecado original corrompe o livre arbítrio, que se transforma em arbítrio escravo). O pai da reforma protestante tinha verdadeiro terror frente à justiça de Deus, porque o homem está totalmente corrompido. O seu conceito de justiça é a “aquela justiça pela qual Deus é justo e justifica o ímpio” (justiça forense, exterior, legal), a qual se consegue mediante a fé somente (Rm 1,17, segundo Lutero, deveria ser interpretado neste sentido).

Lutero (1483-1546)

Contudo, o texto de São Paulo aos Romanos não diz o que Lutero defendia, pois o Deus que justifica pela fé (Rm 1,17), “retribuirá a cada um segundo suas obras” (Rm 2,6). Mais ainda, o que se opõe à justificação pela fé não são as obras boas, mas a confiança na Lei judaica com suas obras, o apoio no próprio homem e o consequente “desprezo” de Deus (Rm 3,19-20). Para completar o quadro, Deus concede a vida eterna aos que fazem o bem (Rm 2,7) e a condenação eterna aos que fazem o mal (Rm 2,8-9).

Concílio de Trento

Ancorada na Tradição e na Escritura, o Concílio de Trento (1545-1563), na sua Sessão VI (23/01/1547) afirmou:

  • O livre arbítrio, pelo pecado original, não foi extinto, por mais que tenha sido enfraquecido (c. 1);
  • É preciso renascer em Cristo para que alguém seja justificado (c. 3), ou seja, a justificação é efeito da graça (S. Tomás);
  • O homens são preparados para a justificação (fé atual) e depois do sacramento do batismo recebem o dom da fé (virtude da fé), veja o c. VI;
  • Justificação não é somente a remissão dos pecados, mas também a santificação e a renovação interior, pela voluntária recepção da graça e dos dons, pela qual (justificação) o ser humano é convertido de injusto a justo, de pecador a santo (c. 7);
  • “Se alguém disser que o ímpio se justifica somente pela fé, de modo que se entenda não ser necessário mais nada a cooperar para a graça da justificação e que não se prepare de modo algum e se disponha pelo movimento de sua vontade, seja anátema” (can. 9).

Poderíamos descrever o processo de justificação da seguinte maneira: O homem recebe a graça preveniente sem nenhum mérito próprio, mas, em parte, deve colaborar, seguindo o convite da graça. A justificação mesma se realiza pela infusão da graça inerente que, em virtude dos méritos de Cristo, o Espírito Santo atúa nas almas. Juntamente com a graça, são infundidas as três virtudes da fé, esperança e caridade. Deste modo, acontece a verdadeira renovação interior do ser humano, pelo qual, de injusto é transformado em justo, de tal maneira que não somente é tido por justo, mas de fato é justo. Pressuposta a graça de Deus, o ser humano pode merecer para a vida eterna (cf. Llorca-Villoslada, III, p. 792).

No contexto da justificação, Deus infunde em nós a fé, virtude sobrenatural que nos surgiu em nós graças ao Batismo e à consequente vida da graça plantada em nós. Com toda verdade se pode afirmar aquilo que o Apóstolo Paulo dizia: “o justo viverá pela fé” (Rm 1,17). A partir desse momento em que o cristão já passou pelo processo de justificação e recebeu o dom da fé, pode merecer, realizar obras boas que merecem a vida eterna porque Deus assim o dispôs.

A fé não é simplesmente algo que eu tenho, mas é algo que faz parte da minha vida, que impregna toda a minha vida. Todo cristão deveria dizer que vive de fé. A mesma estrutura do Catecismo nos leva a pensa nos vários aspectos da fé: ela deve ser professada (1ª parte do Catecismo: explicação do Credo); celebrada (2ª parte: Sacramentos); vivida (3ª parte: Mandamentos) e feita oração (4ª parte: Pai-nosso).

O que foi dito anteriormente tem muitas consequências na vida. Se eu vivo de fé, não momentos nos quais eu descanse de ser cristão. Não existem férias da vida com Deus, da vida sacramental, da oração. Caso eu viva de fé, essa realidade me acompanha durante as 24 horas do dia: também no meu trabalho e na minha filha, e até mesmo quando eu durmo, eu sou uma pessoa de fé. Eu não posso negar-me a mim mesmo: eu sou um homem de fé! Eu sou uma mulher de fé! Tudo isso, sem dúvida alguma, colabora para que eu receba a vida eterna (cf. Mt 25,31-46).

E o que dizer da concupiscência? “O fato de a concupiscência ou paixão permanecer nos batizados, este santo Concílio confessa-o e sente; a qual, como foi deixada para o combate, não pode danar àqueles que nela não consentem e virilmente a resistem pela graça de Jesus Cristo. Pelo contrário, “aquele que lutar, será coroado” (2 Tm 2,5). Esta concupiscência que foi chamada alguma vez “pecado” pelo apóstolo (cf. Rm 6,12-15; 7.7,14-20), este santo Concílio declara que a Igreja Católica nunca a entendeu que se chame pecado porque seja verdadeira e propriamente pecado nos renascidos, mas porque procede do pecado e ao pecado inclina. E se alguém sentir de outra maneira, seja anátema” (Conc. Tr., sess. V, can. 5).

(Livro interessante para ler: Ronald KNOX, O Credo, São Paulo: Quadrante, 1988, 198 p.)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 9/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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