Apologética, 11/25: Para que fazer penitência se Cristo já me salvou?

Decorrente daquela ideia protestante de que como o ser humano está totalmente corrompido e de que suas obras, consequentemente, são más, tudo o que ele faz entra também na corrupção: todas as suas obras são más e, portanto, o ser humano não pode fazer nada que o ajude na salvação eterna. Ele apenas deve esperar da misericórdia divina a sua justificação.

O Apóstolo Paulo não está de acordo com esta ideia quando afirma que “o que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Quem leu com atenção o Novo Testamento, observa como os discípulos do Senhor sofrem com a certeza de estarem fazendo algo bom e de ajudarem a comunhão dos santos, que é a Igreja do Deus vivo. No fundo, aqueles primeiros cristãos contemplavam seriamente o mistério da cruz. É preciso olhar para a Cruz, pois contemplar esse Mistério é ir ao porquê da nossa penitência. As orações, os jejuns e esmolas têm sentido porque nos põem em contato com a Cruz do Senhor e nos faz solidários com o Corpo Místico de Cristo. Além do mais, nós recebemos do Mistério da Cruz a força para unir-nos à mesma Cruz, ou seja, aquilo que Deus nos pede, ele nos concede: Deus nos pede que façamos penitência? Ele nos dá a graça para realizá-la? Deus pede que partilhemos e que não sejamos egoístas? Ele nos dá a graça da generosidade e da esmola. O que está por detrás de tudo isso é a primazia da graça de Deus na nossa vida.

Em concreto, a Igreja Católica ensina aos fiéis de Cristo que todas as sextas-feiras do ano e o tempo da Quaresma são dias de penitência de maneira especial. A quarta-feira de cinzas e a sexta-feira santa, em honra da morte do Senhor, são dias especiais de penitencia em toda a Igreja, que nos obrigam ao jejum e à abstinência. Todas aquelas pessoas que já completaram 14 anos estão obrigados à abstinência; ao jejum estão obrigados somente os maiores de idade. Não obstante, depois dos 60 anos já não há obrigação de fazer jejum. Todos os fiéis, no entanto, devem crescer no espírito de penitência.

Em que consiste a abstinência? Consiste em não comer carne. No entanto, no nosso País, por determinação da autoridade eclesiástica, a abstinência pode ser de outro tipo, principalmente através de “obras de caridade e exercícios de piedade”. Com outras palavras, uma pessoa poderia comer carne (exceto na sexta-feira santa) e substituir por conta própria tal penitência por um terço, pela visita a algum enfermo ou ainda outra coisa que queira fazer, seja em forma de oração seja em forma de obra de misericórdia. Qualquer penitência vale! Mas é preciso fazer alguma. Na prática, e para não improvisar, o melhor é ter em mente o que se vai fazer e colocá-lo em prática.

E o jejum? Como fazê-lo? É suficiente atuar segundo o seguinte princípio: fazer apenas uma refeição completa, todas as outras devem ser incompletas e sem o lanchinho da tarde. Na prática: um cafezinho simples, almoço normal, sem lanche e, em lugar do jantar, um lanchinho. E quem quiser fazer mais do que isso? É só fazer. Contudo, é importante que o nosso jejum não diminua a intensidade do nosso trabalho e a nossa atenção caridosa para com os outros. Fazer jejum a pão e água, mas ficar mal humorado e trabalhar sem vibração seria um contrassenso.

Desta maneira, se pode viver num autêntico espírito de penitência, isto é, com uma disposição permanente em provocar a morte –através da penitência– de tudo aquilo que nos separa de Deus. Ao mesmo tempo aprenderemos a oferecer ao Senhor as diversas dificuldades, dores e tribulações com sentido de expiação, reparação e intercessão.

 “Todo pecador deve chorar. A quem se chora senão a um morto? E quem está mais morto senão o malvado? Coisa admirável: chore por si mesmo e reviverá; chore fazendo penitência e será consolado com o perdão” (S. Agostinho). Que consolador é chorar os próprios pecados! Aquele que já teve essa experiência bem o sabe. Que alívio! Pode ser uma boa preparação para o Sacramento da Confissão ou até mesmo um fruto dela. Justamente por isso o sacramento da confissão é também chamado de “penitência”, já que esta é mais uma atitude do que um ato. Os pecadores, sem saber ou sabendo, vão se destruindo a si mesmos. Que pena! Não dá vontade de chorar ao ver tantos jovens afundados nas escravidões das drogas, do sexo, da violência? Rapazes e moças que podem ter um futuro brilhante estão se destruindo pouco a pouco, encontrando nisso um prazer que poderíamos qualificá-lo como “quase macabro”. A imagem de Deus sendo desfigurada nessas pessoas! Não é triste? A penitência reconstrói essa semelhança de Deus que o homem perde por causa do pecado.

É comum ler nas biografias dos santos que eles choravam pelos próprios pecados e também pelos pecados da humanidade. Esses cristãos que tinham intimidade com Deus sentiam delicadamente o que é uma ofensa a Deus. Pecar é ofender a Deus. Assim como nós nos sentiríamos mal se ofendessem alguém que consideramos o nosso melhor amigo, de maneira semelhante é-nos doloroso ver que se ofende a Jesus, nosso melhor amigo. Os santos choravam pelos pecados porque amavam a Deus. Eles tinham uma ideia um pouco mais clara de quem é Deus e do quanto ele nos ama. Eles chegavam a penetrar nos abismos da miséria porque viviam nos abismos do amor e da misericórdia de Deus. Entre a Trindade beatíssima – onde o cristão tem a cabeça e o coração – e a miséria mundanal – onde tem a cabeça, o coração e os pés –, o cristão deve viver sempre levando a esse mundo e a todas as pessoas a esperança, a misericórdia e a paz. Deve levar a consolação de Deus!

(Livro interessante para a leitura: Francisco FERNÁNDEZ-CARVAJAL, A Cruz de Cristo, São Paulo: Quadrante, 1999, 156 p.)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 11/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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