Apologética, 12/25: Devo orar ou rezar?

Habitualmente, utilizando o texto de Mt 6,7 – “Nas vossas orações, não queirais usar muitas palavras, como os pagãos, pois julgam que, pelo seu muito falar, serão ouvidos” – algumas pessoas afirmam que não se deve rezar, mas orar a Deus, querendo dizer com isso que rezar é repetir mecanicamente uma fórmula e orar é conversar com Deus de maneira espontânea. O primeiro se deve evitar, o segundo se deve fomentar, dizem eles. Como eles são pouco observadores do texto bíblico que utilizam! De fato, se o sentido que eles dão às palavras rezar e orar estiver certo, o texto de Mt 6,7 acaba incluindo o rezar no orar: “nas vossas orações, não queirais usar muitas palavras”, fórmulas decoradas, rezas. Pois bem, Jesus estaria admitindo que na oração seria possível usar a reza; logo, a reza estaria incluída na oração. Além desta argumentação ser favorável aos católicos, há que dizer que o sentido de rezar e orar não é exatamente esse que eles afirmam.

Enquanto rezar vem de “recitare” e orar vem de “orare”, é preciso considerar que na língua latina, da qual são essas palavras, quem recita (recitare) pode fazer uma oração escrita no sentido de ler em voz alta e clara, quem ora (orare) pode fazer uma reza no sentido de que o orador é aquele que pronuncia uma oração, um discurso, uma fórmula no juízo, esta pode ser escrita ou decorada anteriormente a partir de um escrito. Sendo assim, vemos que essas duas palavras tem origem muito próximas.

Contudo na Fé católica, a oração abrange diversas maneiras de “falar com Deus”, já que temos a “oração vocal” (o que eles chamam de “rezas”, e nós também), a oração de meditação (hoje em dia frequentemente chamada de “lectio divina”) ou oração mental, e a oração contemplativa (própria de um estado de união com Deus cada vez maior). O Catecismo da Igreja Católica nos fala desses expressões da orações no números 2700 a 2724. Na verdade, todo a parte IV do Catecismo é um excelente tratado sobre a oração, muito recomendável para todos os cristãos. O Catecismo, depois de afirmar que existe uma vocação universal para a oração porque todo ser humano é chamado a uma relação de intimidade com o seu Criador, nos fala da tradição da oração – suas fontes (Palavra, Liturgia, Virtudes, o “hoje”), o caminho a percorrer (ao Pai pelo Filho no Espírito Santo, em comunhão com Santa Maria) e os mestres da vida de oração (os santos) – e da própria vida de oração: suas expressões, o combate, a confiança, a perseverança e a oração da hora de Jesus (nossa entrada na vida de oração do próprio Jesus, assemelhando-nos a ele). Finalmente, o Catecismo nos entrega um comentário precioso da Oração do Senhor, o Pai-Nosso como modelo da oração do cristão, a tal ponto que não se pode orar (ou rezar) a não ser na “folha pautada”, que é o Pai-Nosso.

Em concreto, temos que rezar algumas orações vocais com muita frequência, como o Pai-Nosso (cf. Mt 6,9-13), a Ave-Maria (cf. Lc 1,28.42), o Glória ao Pai (cf. Fl 2,11; 4,20), entre outras que a tradição da Igreja nos transmitiu. Essas orações devem ser recitadas com boas disposições do coração, desta maneira a reza é oração e a oração é reza. Não há problema com a palavra que se utiliza. Mais ainda, devemos dirigir-nos ao Senhor com diversas orações durante o dia, sem esquecermo-nos de ter um tempo para a oração mental que terminará em contemplação durante a nossa jornada habitual.

(Livro interessante para a leitura: JOSEMARIA ESCRIVÁ, Caminho, São Paulo: Quadrante).

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 12/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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