Apologética, 13/25: A Igreja Católica batiza correta e validamente?

A resposta é sim. Contudo a Igreja teve que se explicar várias vezes por causa de grupos que defendem as seguintes teses: 1. O batismo é somente para adultos, portanto as crianças não deveriam ser batizadas; 2. O batismo deve ser em águas correntes, portanto o batismo católico que não é “nas águas” é inválido; 3. O batismo deve ser por imersão, portanto o batismo católico por infusão não seria válido.

Talvez a primeira coisa a ser dita aqui é que não há, na Bíblia, uma única passagem que diga que o batismo deva ser ministrado somente aos adultos, somente por imersão, somente em rios (águas correntes). Se o católico sempre deve responder ao evangélico porque batiza crianças, o católico também pode perguntar porque eles não batizam crianças. Tanto uma pergunta quanto a outra é válida. Por que eles excluem as crianças da salvação uma vez que o batismo é necessário para a salvação (cf. Mc 16,16)? Ou o texto citado agora por nós é válido para a nossa fé ou ele não é válido caso se admita a salvação de crianças sem o batismo. Por outro lado, caso exista alguém que se salve sem o sacramento do batismo, faltará a explicação de que como o batismo o alcança.

Dizem alguns que o batismo das crianças não é válido porque elas não podem crer devido ao seu pouco desenvolvimento consciente. Efetivamente, a Escritura afirma que “quem crer e for batizado será salvo”, portanto a fé é necessária para o batismo. Por outro lado, a fé é fruto do batismo, pois o nosso processo de justificação acontece no fato de que Deus santifica a essência da nossa alma pela graça santificante e concede às capacidades da nossa alma (Inteligência e vontade) os dons da fé, esperança e caridade. A doutrina Católica distingue, portanto, a fé atual da fé habitual. A fé atual é uma graça de Deus concedida em determinado momento e para determinada situação, por isso se chama fé “em ato”, isto é, no hoje, no agora da pessoa humana. Esta fé pode dar-se em algum momento em qualquer pagão como um movimento que o prepara para receber a graça santificante e a fé como virtude teologal. A fé habitual é uma graça de Deus concedida habitualmente a nós e que não se acaba, exceto se cometermos um pecado diretamente contra a fé (heresia, apostasia). Neste sentido, a fé habitual é um virtude infundida por Deus em nós (virtude teologal) que nos conduz a Deus ao elevar nosso entendimento a ele para que acreditemos nele, por causa dele e nas realidades que eles nos revelou.

É certo, as crianças não podem ter a fé habitual antes do batismo, pois esta fé pressupõe ordinariamente o sacramento do batismo. Contudo não parece ser que a fé deve necessariamente preceder o batismo na passagem de Mc 16,16, uma vez que logo em seguida afirma que “o que não crer, será condenado”, sem falar de novo do batismo. Logo, este texto bíblico pode ser interpretado no sentido em que a criança ao ser batizada recebe a fé habitual por mais que não tinha antes a fé atual. Esta, a fé habitual, está ligada ao batismo e, consequentemente, à salvação. Mais ainda, a Escritura chega a afirmar de que sem a fé é impossível agradar a Deus (cf. Hb 11,6), mas não fala a mesma coisa sobre o batismo. Pelo teor de Hb 11,6, o autor sagrado parece pressupor que a fé que leva a pessoa acreditar pelo menos na existência de Deus e na recompensa que ele dá aos justos pode ser uma fé habitual, mesmo sem a recepção do batismo, uma vez que o conteúdo desta fé (existência de Deus, retribuição eterna) é típica de uma “fé natural”, isto é, uma resposta à revelação natural de Deus através da criação.

Mais ainda, Ef 2,8 diz que a fé é dom de Deus. Como a Revelação assim o diz, é forçoso dizer que Deus concede às crianças a fé como dom que, infundido como se fosse uma pequena semente, está destinada a crescer à medida em que a criança faz-se consciente das coisas e de si mesma. Se o marido cristão santifica a esposa pagã e a esposa cristão santifica o marido pagão (cf. 1 Cor 7,14), razoável é que o próprio Apóstolo diga, neste mesmo texto citado, que os filhos destes casamentos mistos (entre cristão e pagã ou pagão e cristã) não são impuros, mas santos. Não seria absurdo afirmar a influência da salvação cristão não somente sobre o cônjuge, mas também sobre os filhos. Se isto é assim por aproximação quanto mais o será quanto ao batismo, que produz a santificação dos filhos. A Igreja é tão consciente desta realidade que pede que os pais batizem seus filhos o mais rápido possível (quam primum) e não retardem conceder essa graça maravilhosa aos seus pequenos.

Mas, dirão alguns, os bebês não sabem ainda o que quer e você vai força-los a abraçar a Fé? Este argumento é inconsistente, pois os bebês tampouco sabem valorizar a comida, a bebida ou a escola e, no entanto, os pais as alimentam e as educam sem pedir a opinião delas, pois sabem que essas coisas são bens que não lhes devem ser negados. Se desejam bens deste mundo para seus filhos, com maior razão devem desejar bens eternos. Por outro lado, os pais não forçam seus filhos a receberem a Fé quando pequenos, já que para alguém ser forçado a algo sua vontade deve se opor àquilo que se lhe propõe; é manifesto que ninguém viu algum bebê protestar contra o batismo, ou, dito de maneira positiva, as crianças não colocam obstáculo da vontade para serem batizadas. Portanto, da parte dos bebês são sujeitos aptos para o sacramento do batismo. No caso dos adultos, eles, devido ao exercício das faculdades espirituais, devem aderir voluntariamente à Fé. De fato, não se pode batizar um adulto contra a vontade dele, pois este batismo forçado seria inválido.

Tudo isso explica os costumes da Igreja quanto ao batismo e como ela sabiamente batiza, também as crianças. A verdadeira religião entendeu desde o começo o significado daquilo que Jesus tinha dito sobre o fato de que as crianças não devem ser impedidas de irem ao seu encontro (cf. Mt 19,14) e entendeu que a maior aproximação que as crianças podem ter a Jesus Cristo é pela graça santificante e pelos dons da fé, esperança e caridade. Mais ainda, a Igreja, como Mãe amorosa, estende a influência do batismo àquelas crianças que morreram sem o batismo, acreditando na misericórdia de Deus para com os pequeninos.

São Paulo, com a esperteza que lhe caracteriza, utiliza uma comparação para explicar o batismo: “não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos atravessaram o mar e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés” (1 Cor 10,1-2). Batizados em Moisés? Mas o batismo não deve ser “em o Nome de Jesus”, isto é, o batismo cristão? Batizados na nuvem e no mar? Mas se o batismo deve ser na água, por que se fala aqui da “nuvem”? Como se pode perceber, o Apóstolo explica o sacramento do batismo através de simbolismos, fala-nos da realidade através dos símbolos, para que não levemos tudo ao pé da letra e segundo a materialidade das coisas. Mais ainda, como os israelitas teriam sido batizados nas águas se eles atravessaram o mar a pé enxuto, portanto sem entrar nas águas? Forçoso é aceitar que uma leitura fundamentalista da Escritura nos deixa no escuro e sem entendimento espiritual.

Quanto às águas, a Igreja entendeu também que era necessário água para batizar e uma palavras que significassem o que a água faz ao entrar em contato com o corpo humano neste sacramento: “N., Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. O sentido profundo da Tradição e da Escritura é batizar nas águas e em nome de Deus uno e trino, o qual inclui, na segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o nome de Jesus, no qual o batismo se realiza. A Igreja entendeu também que a água é importante no batismo como símbolo que deve ser significado pelas palavras do sacramento do batismo. Sendo assim, não importa tanto a quantidade ou a qualidade da água, mas se se trata de água verdadeira, sobre a qual a Igreja faz a oração significativa. Portanto, no que se refere à água o batismo pode ser por imersão em água corrente ou não, por infusão (água sobre a cabeça) ou por aspersão (gotas de águas sobre as pessoas); este último caso se aplicaria especialmente sobre um grande número de pessoas a serem batizadas.

(Livro interessante para a leitura: Fernando OCÁRIZ, Ignacio CELAYA, Viver como filhos de Deus, Lisboa: Rei dos Livros, 2000, 147 p).

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 13/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

Posted in Estudos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

* Campo obrigatório