Apologética, 14/25: A Eucaristia simboliza o Corpo de Cristo?

Dos vários textos sobre a Eucaristia – entre eles Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20; Jo 6 – vamos comentar apenas o texto do qual vem as palavras da consagração no santo sacrifício da Missa, 1 Cor 11, 23-26:

  • Um texto da “parádosis: Tradição”: Egó gàr parélabon atò tou Kyriou, hò kaì paredoka hemin (1 Cor 11,23) – Preocupação de S. Paulo: transmitir a Tradição da Igreja quanto à doutrina eucarística: “Eu recebi do Senhor o que vos transmiti”.
  • Como já foi dito, as palavras da consagração são as dessa passagem – 1 Cor 11,24-26 –, isto é, a Igreja conserva com fidelidade as palavras do seu Senhor. É questão de lealdade: temos que utilizar as fórmulas que Jesus e sua Igreja estabeleceram para celebrar os Sacramentos.
  • Vale também para nós aquelas palavras do Apóstolo: “todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor” (1 Cor 11,27). Nesse assunto, há dupla responsabilidade para o cristão: 1) comungar sempre em estado de graça; 2) exame e confissão fazem-se necessários: comer e beber a eucaristia sem examinar-se e, consequentemente, em pecado, era, segundo o Apóstolo, “a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos” (1 Cor 11,30).

Santo Inácio de Antioquia (+ 107), lutou contra o docetismo, pois aqueles que pertenciam a este grupo herético diziam que a carne de Cristo era apenas aparente e, portanto, negavam a verdadeira humanidade de Jesus. Afirma Santo Inácio que “Da Eucaristia e da oração, os docetas se separam porque não confessam que a Eucaristia é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, a que padeceu pelos nossos pecados, a que por sua benignidade o Pai ressuscitou” (Ad Smirn. 7,1). A Eucaristia é a carne do Senhor: “Procurai usar uma mesma Eucaristia. Porque é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ad Philad. 3,4). Para ele, a unidade se manifesta na Eucaristia. Sua lógica: a Eucaristia é una porque una é a carne de Cristo; por isso, a Eucaristia deve ser celebrada na unidade, isto é, em união com o bispo e o presbitério (cf. Ad Philad. 3,4).

Para São Justino (+ 165), segundo a Apol. 1,65ss, a Eucaristia é a carne e o sangue de Cristo, pois o pão e o vinho são transformados e ficam elementos eucaristizados.

São Cirilo de Jerusalém (+ 386) fala da conversão da mudança (metabalón) do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo (Catech. 22). Diz ainda: “Invocamos ao Deus amador dos homens para que envie o seu santo Espírito sobre a oblação, para que faça (poiése) o pão em corpo de Cristo, e o vinho em sangue de Cristo. Pois certamente qualquer coisa que o Espírito Santo tocar fica santificada e mudada (metabébletai)” (Catech. 22).

São João Crisóstomo (+ 407) manifestou tanto a sua fé no Sacramento (presença real, conversão, efeitos), que recebeu o título de “doutor eucarístico”. O corpo que os magos adoraram no presépio está agora no altar; não nos braços de Maria, mas nos braços do sacerdote. Este corpo de Cristo vemo-lo na terra, o tocamos, o comemos, o levamos à casa (In epist. 1 ad Cor 24,1). Ele afirma uma presença real, mas não sensível; presença acessível unicamente à fé. “O sacerdote – diz ele – assiste na figura de Cristo, pronunciando aquelas palavras, mas a virtude e a graça é de Deus. ‘Este é o meu corpo’, diz. Esta palavra transforma (metarizmisei) as coisas oferecidas” (Homilia in perditione Iudae 1,6)

Santo Ambrósio (+ 397) afirma que a benção muda (mutatur) até a natureza, tal afirmação é fundamento para dizer também que os elementos pão e vinho são mudados no corpo e no sangue do Senhor. Ainda afirma Santo Ambrósio: “Este pão é pão antes das palavras sacramentais; mas, uma vez que recebe a consagração, o pão se faz (fit) carne de Cristo. (…) quando chega o momento de que o sacerdote faça o sacramento venerável, ele não fala com suas palavras, mas emprega as de Cristo. Logo, é a palavra de Cristo que faz este sacramento” (De sacram. 4,4,14).

Fausto de Riez (+495) foi uma ponte importante entre a patrística e a Idade Média no que se refere à doutrina eucarística. Sua homilia magnituto teve grande repercussão, pois será citada no século IX por Pascácio Radberto e, no século XI, por Guitmundo de Aversa; também foi louvada nas Sentenças de Pedro Lombardo. Nesta homilia, Fausto fala com clareza que o pão e o vinho se convertem na substância do corpo e do sangue de Cristo; que essa conversão substancial acontece pelo poder criador da palavra de Deus; que como Cristo ia subir aos céus, ele nos consagrou o sacramento do seu corpo e do seu sangue; que “quando te aproximas do venerado altar para ser saciado com os celestiais manjares, olha o sangue e o corpo sacrossanto do teu Deus; honra-os, admira-os, toca-os com a tua mente; pega-os com a mão do teu coração e, sobretudo, toma-os com deglutição espiritual”; que cada um recebe na Eucaristia todo o corpo de Cristo, sejam muitos ou poucos; por último, que o corpo da Igreja é formado a partir da Eucaristia.

Contra toda a Tradição da Igreja, Berengário (1000-1088), cônego de Tours e mestre na Escola de Chartres, afirmou claramente que a Eucaristia seria um símbolo. Dentro de sua dialética, Berengário afirma que a razão é o guia supremo na percepção da verdade. Junto a este princípio, estabelece também que conhecimento é igual a experiência sensível; sendo assim, a substância será algo perceptível e sensível aos sentidos. Além disso, como Cristo está localizado no céu, é impossível – segundo o cônego de Tours – que o esteja na terra. Nessa lógica, portanto, Cristo não estaria presente na Eucaristia. Berengário nega então a conversão eucarística. Provas da negação da transubstanciação se encontra através de Hugo de Langres e de uma carta que Berengário escreveu a Ascelino. Lanfranco (1010-1089) disse claramente que Berengário negava a carne e o sangue de Cristo, reduzindo a presença a mero símbolo.

No século XII, os teólogos escreveram muito sobre a Eucaristia para responder à heresia de Berengário. A palavra “transubstanciação” aparece pela primeira vez nos escritos de Rolando de Bandinelli (1100-1181), o futuro Papa Alexandre III, e ganhou carta de cidadania. Guitimundo de Aversa já distinguia entre a substância que muda e os acidentes que permanecem; esse autor também defende a presença de Cristo em cada parte dos acidentes e em cada um dos lugares.

O Magistério da Igreja interviu contra Berengário tanto no Concílio Romano de 1059 quanto no de 1079. Porém, a palavra transubstanciação aparecerá pela primeira vez, no Magistério Católico, no Concílio de Latrão IV, no ano 1215.

Martinho Lutero (1483-1546) defendeu a consubstanciação em lugar da transubstanciação. São palavras suas: “Quando eu percebi que a Igreja que na realidade tinha determinado isso tinha sido a Igreja tomista, isto é, a aristotélica, minha audácia alentou-se e vendo-me entre Scila e Caribdis, minha consciência afirmou-se na primeira sentencia: que subsistiam o pão e o vinho verdadeiros, sem que se alterassem ou diminuíssem a carne e o sangue” (Lutero, De captivitate Babylonica). A doutrina da transubstanciação e a teologia dos acidentes sine subiecto foram, portanto, rechaçadas por Lutero; não assim a doutrina da presença real: Cristo permaneceria no pão e no vinho (consubstanciação), isto é, permanecem as duas substâncias: a de Cristo e as dos Pão e do Vinho, porém essa permanência de Cristo nas espécies seria in usu.

Por que Lutero nega a causa da presença? Isto é, por que nega a transubstanciação sem negar seu efeito. Simples: enquanto a presença não é difícil vê-la afirmada pela Sagrada Escritura, a transubstanciação seria uma doutrina aristotélico-tomista. Em conclusão, para Lutero o Pão e o Vinho consagrados não são o Corpo e o Sangue de Jesus, mas Jesus “está” no Pão e no Vinho.

Já Calvino (1509-1564) pensava que Jesus Cristo age no pão e no vinho. A eucaristia poria, desta maneira, ao alcance do crente a promessa de salvação, nos faria participar do corpo e do sangue de Cristo. Calvino nega, portanto, a transubstanciação e a consubstanciação. Cristo está localizado no céu e não o podemos ligar às criaturas terrestres, mas está na eucaristia potentia et virtute: ao comer o pão e o vinho com fé, Cristo é recebido em alimento. A ação material é sinal e instrumento de um dom espiritual.

Os cátaros (“puros”) ou albigenses (Albi), nos séculos XII e XIII, afirmavam que Cristo mudou o pão em seu corpo, mas somente ele fez isso e que, portanto, a Eucaristia não é nada. Os valdenses, seguidores de Pedro Valdo (1140-1205), por sua vez, negavam a competência exclusiva do sacerdote para confeccionar a Eucaristia. Nesse sentido se entende, quando a Constituição De fide catholica, do Concílio IV de Latrão, proclama: “Uma só é a Igreja universal dos fiéis, fora da qual ninguém absolutamente pode salvar-se, e nela o mesmo sacerdote é sacrifício, Jesus Cristo, cujo corpo e sangue se contêm verdadeiramente no sacramento do altar sob as espécies do pão e do vinho, depois de transubstanciados, por virtude divina, o pão no corpo e o vinho em sangue, a fim de que, para aperfeiçoar o mistério da unidade, nós recebamos do que é dele aquilo que ele recebeu de nós. E ninguém pode realizar esse sacramento a não ser o sacerdote que foi validamente ordenado, segundo as chaves da Igreja, que o mesmo Jesus Cristo concedeu aos Apóstolos e aos seus sucessores” (DH, 802).

(Livro interessante para a leitura: Enric MOLINÉ, Os sete sacramentos, Lisboa: Diel, 2001, 270 p.).

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 14/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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