Apologética, 15/25: Sábado ou domingo?

“Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana” (Jo 20,19), os discípulos encontraram o Senhor e receberam a sua paz. O mesmo acontece conosco, também no primeiro dia semana, isto é, no domingo, o primeiro dia, o oitavo dia; dia da criação, dia da nova criação; dia do tempo primordial, dia que simboliza a eternidade!

Abitene (atual Tunísia) foi cenário de uma das perseguições aos cristãos, nos tempos do Imperador Diocleciano, no século IV. Entre os diversos testemunhos, encontra-se o de Emérito. Este afirma sem medo algum ter hospedado na sua casa os cristãos para a celebração da Santa Missa. O proconsul o perguntou: “porque acolhestes em tua casa os cristãos, indo assim contra as disposições imperiais?” Emérito respondeu: “Sine dominico non possumus”, isto é, não podemos nem ser nem viver como cristãos sem reunirmo-nos aos domingos para celebrar a Eucaristia. Nesse sentido, São João Paulo II apresentou-nos na Carta Apostólica Dies Domini (1998) uma doutrina abundante sobre o Domingo. A Carta divide-se em cinco capítulos e apresenta-nos o Domingo como o Dia do Senhor, o Dia de Cristo, o Dia da Igreja, o Dia do homem, o Dia dos dias. Cada um desses capítulos apresenta-nos um aspecto sobre o domingo e todos estão profundamente unidos.

O sábado, para o Povo de Israel, era dia santo, dia consagrado ao Senhor, era o dia do descanso (sabbat) do Senhor (cf. Dt 5,14) e do homem. Entre os primeiros cristãos, parece que a expressão “dia do Senhor” surgiu na área antioquena a partir do conceito bíblico do dia no qual o Senhor atuou (cf. Sl 117,24; Mt 3,17; 4,3). Eles interpretaram o Sl 117 como anúncio da Ressurreição e aplicaram o Sl 109 a Jesus Cristo ressuscitado (cf. At 2, 32-35.36; Rm 10,9; 1 Cor 12,3) como Kyrios (palavra grega que traduz Yahvéh na “Tradução dos LXX”). O Domingo é o dia que celebra o Senhor como único que pode salvar (cf. Rm 10,9-13) e que remete ao Cristo glorioso que vem a nós na Eucaristia. A razão de ser do Domingo é celebrar a Páscoa que, para os cristãos, tem caráter permanente e universal, não só anual. No entanto, só o domingo está marcado pela ressurreição. O Dia do Senhor é, portanto, o dia da Eucaristia. Jean Daniélou, famoso teólogo do século passado, dizia com razão que “nada poderá atentar contra a participação na eucaristia. Incluso quando um novo paganismo ou, digamos, uma organização mais racional da sociedade forçasse os cristãos, individualmente ou em grupo, a trabalhar durante o domingo; como no tempo dos mártires, deveriam reunir-se antes do pôr-do-sol para celebrar a memória do Senhor”. Esta foi a consciência da Igreja de todos os tempos!

Talvez a passagem mais significativa da Escritura para explicar que no Novo Testamento o que está valendo agora é o domingo e não o sábado, seja Cl 2,16-17: “Ninguém vos julgue por questões de comida e de bebida, ou a respeito de festas anuais ou de lua nova ou de sábados, que apenas são sombra de coisas que haviam de vir, mas a realidade é o corpo de Cristo”. A última palavra orienta tudo: a realidade é o corpo de Cristo e, portanto, o anterior (comidas, bebidas, sábados, leis cerimoniarias do Antigo Testamento) é uma profecia que preparava esta realidade maravilhosa da graça, uma figura que preparava o caminho da realidade, um símbolo do real, um passado pedagógico do qual já não precisamos porque temos a finalidade do caminho de aprendizagem. Efetivamente, o sábado fazia parte de uma pedagogia divina que servia para a educação do povo de Israel, mas a realidade é o corpo de Cristo: seja o físico ou glorioso; seja o “corpo eucarístico”, o qual é celebrado no dia por excelência, o novo dia do Corpo do Senhor; seja ainda o “corpo místico”, a Igreja. Em uma visão de síntese, podemos dizer que o domingo é o dia do corpo do Senhor: 1. Dia do próprio Jesus Cristo, 2. Dia da Eucaristia, 3. Dia da Igreja, 3. Dia do Povo de Deus. Por sua vez, o domingo é profecia de um dia eterno no qual os nossos irmãos da Igreja gloriosa já se encontram, o oitavo dia, e que nós temos certa degustação nas nossas celebrações eucarísticas.

(Livro interessante para a leitura: Jean DANIÉLOU, Bíblia e liturgia, São Paulo: Paulinas, 2013, 373 p.).

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 15/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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