Livro do Pe. Françoá Costa sobre Eclesiologia

COSTA, Françoá, A Igreja de Jesus Cristo. Eclesiologia hoje, São Paulo: Cultor de Livros, 2020, 350 p., 14×21, ISBN 978-65-86580-10-5

O livro será aqui apresentado pelo Prefácio do Pe. Rafael Stanziona de Moraes:

“O livro que o leitor tem em mãos não é apenas um manual de Eclesiologia. Certamente pode ser utilizado como tal por quem tiver alguma familiaridade com a teologia católica, como seminaristas e padres, por exemplo. No entanto, ele é mais que um manual. Trata com boa profundidade de temas da Eclesiologia que, na maior parte das vezes, são abordados de forma meramente sumária nos manuais. Além disso, apresenta várias intuições do autor que podem servir de ponto de partida para fecundos desenvolvimentos elaborados por especialistas. Sem dúvida, vem a preencher uma lacuna da bibliografia sobre Eclesiologia disponível na língua portuguesa. Dito isso, podemos elencar algumas características importantes da obra.

Trata-se de um texto que lança raízes profundas na Eclesiologia do Vaticano II, em particular na Lumen Gentium. Facilita uma compreensão adequada da doutrina conciliar, que evita cuidadosamente os desvios que se deram no pós-concílio com relação às noções de Povo de Deus e de Comunhão, infelizmente ainda frequentes nos nossos dias.

Na esteira da Lumen Gentium, a Igreja é apresentada como Mistério sobrenatural, como ‘povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo’ (LG, 1); a dimensão vertical da Communio que a constitui é amplamente destacada ao longo de todo o texto e a sua sacramentalidade também é convenientemente considerada. Portanto, o autor claramente constrói uma Eclesiologia a partir de Deus, a partir das Missões do Filho e do Espírito Santo, uma “eclesiologia de cima”, que pode muito bem enriquecer as “eclesiologias de baixo” mais comuns no nosso ambiente. Ajuda-nos a evitar o risco de chegarmos nestas latitudes a uma Igreja sem Deus, como o próprio criador da teologia política, Johann Baptist Metz, afirma ter ocorrido na Europa: “a crise que atingiu o cristianismo europeu – são palavras suas –, não é mais exclusivamente e nem sequer primariamente uma crise eclesial… A crise é mais profunda:  de fato, ela não tem as suas raízes só na situação da própria Igreja: a crise tornou-se uma crise de Deus (…) Esquematicamente se poderia dizer: religião sim, Deus não”[1]. De qualquer modo, o autor tem em conta e apresenta as teses centrais das “eclesiologias de baixo”, como, por exemplo, as de Leonardo Boff, no seu famoso “Igreja: Carisma e Poder”, às quais faz uma crítica justa e sincera. Para sintetizar em uma fórmula a sua visão da Igreja, poderíamos utilizar uma proposta de J. Ratzinger: ‘A Igreja é o novo Povo de Deus, cuja essência consiste em ser o Corpo Místico de Cristo’, que oferece uma boa coordenação dos dois conceitos nela envolvidos.

Outra característica que é preciso destacar nesta obra é a ampla utilização de textos bíblicos. Pode-se afirmar, sem incorrer em exagero, que toda ela se apoia nesses textos, mostrando bem, tanto a continuidade dos desígnios salvíficos de Deus na Antiga e na Nova Aliança, como a originalidade desta última. Nesse sentido, têm particular interesse os primeiros capítulos do texto, em que o autor faz uma bela caracterização da Igreja, como “a Igreja da Aliança no Sangue de Cristo” prefigurada no sangue da Antiga Aliança, solidamente apoiado em abundantes escritos de exegese patrística.

Por outro lado, faz-se um bom reconhecimento do Magistério tanto conciliar como pré-conciliar sobre a Igreja. Tudo acompanhado de oportunos comentários que, além de esclarecer o sentido do texto dos documentos, explicam o contexto em que se situam, em função das principais linhas do debate teológico da época. Analisam-se também alguns aspectos mais relevantes dos documentos da CNBB e do documento de Aparecida, principalmente no que diz respeito ao caráter missionário da Igreja.

O livro oferece uma lúcida explicação sobre a estrutura constitutiva do corpo eclesial, apresentado como povo sacerdotal, em que o sacerdócio ministerial aparece como nitidamente subordinado ao sacerdócio comum dos leigos e a seu serviço. Neste ponto, o autor desenvolve ideias de Pedro Rodríguez, dando consistência teológica a uma tese que tantas vezes é mencionada de maneira superficial. Torna patente qual é o verdadeiro protagonismo do leigo na vida da Igreja, afastando-se radicalmente de qualquer clericalização do seu papel e pondo em destaque a índole secular da sua vocação no seio do Corpo Místico de Cristo, tal como é definida na Lumen Gentium e explicada na exortação apostólica pós-sinodal Christifideles laici.

Estudam-se também, em perspectiva teológica (não apologética, como não poderia deixar de ser) as quatro notas que identificam a verdadeira Igreja de Cristo por constituírem características que lhe são essenciais: a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade. Dá-se especial ênfase à unicidade, na medida em que se discute cuidadosamente a noção de ecumenismo proposta pelo Vaticano II no decreto Unitatis Redintegratio, que, apesar de ter gerado muita polêmica, representa, sem dúvida, um importante progresso na compreensão do depositum fidei custodiado pela Igreja.

Sobre a evolução pós-conciliar da teologia sobre a Igreja, o autor dedica todo um capítulo ao acalorado debate a propósito das relações entre a Igreja Universal e as Igrejas Particulares que surgiu após a publicação da Communionis Notio da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1992. Explica com bastante detalhe as posições dos dois principais protagonistas desse debate – J. Ratzinger e W. Kasper – e tira as suas conclusões. Detém-se também na explicação da importante noção de sinodalidade, tão cara ao Papa Francisco, que se tem perfilado nos últimos anos.

Por fim, se fôssemos questionados a respeito dos teólogos que mais influenciaram o pensamento do autor, arriscaríamos citar os seguintes: J. Daniélou, uma vez que a sua tese doutoral versou sobre a obra desse renomado jesuíta; G. Philips, o conhecido relator da Lumen Gentium, cuja obra continua sendo até os nossos dias um ponto de referência na hermenêutica daquele texto conciliar; Pedro Rodriguez, com a sua grande capacidade de explicar com clareza os temas mais intrincados da eclesiologia e, naturalmente J. Ratzinger, cujo pensamento permeia praticamente todas as páginas da presente obra. No entanto é de justiça dizer que o autor maneja com boa desenvoltura as ideias de vários outros autores citados na Bibliografia.

Concluo, dizendo que este livro constitui a natural continuação da obra sobre Cristologia recentemente publicada pelo padre Françoá Costa a quem agradeço de coração a alegria que me deu, ao convidar-me a escrever este breve prefácio, e as amáveis palavras a meu respeito que constam nos agradecimentos do livro. A propósito, esclareço que se algum mérito me é devido nesta obra, ele se limita ao fato de ter estimulado o autor escrevê-la, mesmo tendo que espremer o seu tempo para se desincumbir simultaneamente da exigente tarefa de pesquisa acadêmica e do amplo trabalho pastoral que realiza, como consequência do seu grande amor à mesma Igreja sobre a qual escreve. Aliás, resta dizer que esta é talvez a característica mais importante deste livro: trata-se da obra de um apaixonado pela Igreja.”

Dr. Pe. Rafael Stanziona de Moraes

Brasília, 18 de junho de 2020

[1] Palavras de J. B. Metz em 1993, no seu discurso de despedida da cátedra de Münster, citadas por J. Ratzinger em uma importante conferência proferida no dia 27 de fevereiro de 2000 num simpósio em Roma promovido pelo Comitê de preparação para o Grande Jubileu, sobre a aplicação do Concílio Vaticano II.

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